
A escritora, tradutora, epistológrafa e professora portuguesa Maria Mécia de Freitas Lopes (Leça da Palmeira, 16.03.1920 – Los Angeles, 28.03.2020), de família de músicos e historiador, aprendeu piano e línguas estrangeiras, leu clássicos da literatura, formou-se em piano pelo Conservatório de Música do Porto e em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Lisboa, foi professora do ensino secundário, traduziu clássicos da literatura – assinando seus primeiros trabalhos como Freitas Lopes. Em 1949, casou-se com o poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor Jorge Cândido de Sena (Lisboa 02.11.1919 – Santa Barbara, Califórnia, 04.06.1978), também de família da alta burguesia portuguesa, tocava piano, era leitor e poeta desde jovem, engenheiro civil de formação e profissão, que se tornou tradutor de dezenas de obras em vários idiomas e professor catedrático na área de literatura em faculdades no Brasil – naturalizou-se brasileiro em 1963 –, e em universidades nos Estados Unidos da América.
Mécia dedicou sua vida à missão de acompanhar o marido e apoiar sua profícua carreira literária e intelectual. Além de “par amoroso”, formavam “uma equipa”, como ela mencionou em entrevista. Nas palavras dele, Mécia era um “anjo eficaz” e “colaboradora literária”: revisora, conselheira, organizadora de suas atividades poéticas, intelectuais e culturais como conferencista no Brasil e no exterior, crítico de teatro e de literatura, relações com editoras. Ao mesmo tempo em que cuidava dos nove filhos, ela fazia traduções, revisões de livros e de provas para a editora Livros do Brasil, onde o marido era consultor literário, e escrevia diários e muitas cartas tanto para Jorge – quando de suas andanças pelo Brasil e Europa – quanto para notáveis intelectuais, poetas, escritores, críticos portugueses e de outros países.
Mércia e Jorge de Sena moraram em Lisboa até 1959, quando ele se exilou no Brasil. Após participação em tentativa fracassada de golpe contra a ditadura de Salazar e frustrado com o clima literário em Portugal, em viagem ao Brasil para participar no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado na Bahia, Jorge de Sena aceitou o convite para lecionar Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Assis (SP) e, em 1961, outro convite para lecionar Literatura Portuguesa na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Araraquara (SP). O casal, então com sete filhos, mudou-se para Araraquara, onde nasceram duas outras crianças. Nessa faculdade, Jorge de Sena pôde se dedicar à sua vocação literária. Obteve o doutoramento em Letras e a livre-docência, foi nomeado catedrático de Teoria Literária e Literatura Portuguesa, escreveu a tese Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular, o livro de poemas Metamorfoses, os contos de Novas Andanças do Demónio, a novela O Físico Prodigioso, e iniciou o romance Sinais de Fogo. Em 1965, no início da ditadura militar no Brasil, a família se mudou para os Estados Unidos da América. Jorge de Sena aceitou convite para lecionar Literatura de Língua Portuguesa na Universidade de Wisconsin, onde, em 1967, foi nomeado catedrático do Departamento de Espanhol e Português. Em 1970, como catedrático efetivo, passou a lecionar Literatura Comparada na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, tentou regressar a Portugal, mas não foi convidado por nenhuma universidade ou instituição cultural portuguesa e decidiu continuar a viver e trabalhar nos EUA, onde morreu de câncer, com 58 anos de idade.
Jorge de Sena, o notável luso-brasileiro, que dizia escrever "como se escrever fosse respirar", deixou uma obra imensa – entre poesia, prosa, peças de teatro, ensaios, correspondência –, recebeu reconhecimentos importantes, como o Prêmio Internacional de Poesia Etna-Taormina, pelo conjunto da sua obra poética, além de homenagens póstumas, como a do Jorge de Sena Center for Portuguese Studies, na Universidade da Califórnia, e o Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena, na Faculdade de Ciências e Letras, da Unesp – campus de Araraquara.
Mércia de Sena permaneceu nos EUA até morrer, dias depois de completar 100 anos. A “viúva prodigiosa”, segundo o historiador Luís Ricardo Duarte, dedicou o tempo restante de vida a organizar e publicar o espólio do marido, incluindo índice de suas poesias, diários, cartas trocadas entre eles e entre Jorge de Sena e personalidades literárias, e representava o marido em homenagens póstumas, como a inauguração, em 1983, do Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena em Araraquara.
Desde que se conheceram, Mécia e Jorge de Sena trocaram regularmente, durante mais de 30 anos, milhares de cartas, intesificando-se com as numerosas viagens dele pelo Brasil e Europa, nos 19 anos de autoexílio. Segundo a historiadora portuguesa Maria Otília Pereira Lage, autora do livro Mécia de Sena e a escrita epistolar com Jorge de Sena: Para a história da cultura portuguesa contemporânea, publicado em Portugal em 2015, Mécia admirava escritoras que se dedicaram ao gênero epistolar, em especial a neozelandesa Catherine Mansfield: «A única escrita que eu invejei». Lage classificou as cartas em três séries: as dos anos 1940, publicadas na antologia Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor) – Jorge de Sena e Mécia de Sena, organizada por Mécia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982); correspondência entre o casal durante o período no Brasil, entre 1959 e 1965 – que ela denominava «Vita Nuova» –, organizada por Lage e publicada em Portugal em 2013; e a correspondência do período em que viveram nos EUA, que se encontra no espólio de Jorge de Sena sob a guarda da Biblioteca Nacional de Portugal. A correspondência entre o casal ilustra “traços singulares de suas biografias e identidades intelectuais, uma memória viva de sua época e facetas marcantes, em diferentes períodos, da cultura portuguesa contemporânea de que ambos são, diferenciadamente, figuras destacadas.”
Além das cartas e diários, na produção literária de Mécia de Sena se encontra a obra Flashes, “um livro de amor», iniciado em 1980, com mais de 600 páginas, das quais foram publicados apenas alguns excertos. Segundo a historiadora portuguesa, são narrativas curtas de vivências, memórias, acontecimentos marcantes, como “um diálogo vivo, constante e amoroso com Jorge de Sena, interlocutor privilegiado e omnipresente” nesse livro, em que a autora traça “uma trajectória de vida feminina (projectos, problemas, realizações, anseios...) ancorada numa grande diversidade de redes sociais e culturais”.
Para Jorge de Sena, com a correspondência entre eles podiam “estar a fazer uma escrita de felicidade”. Para Mécia de Sena, as cartas, os diários e os flashes representavam uma “escrita de libertação”. E, como Lage destaca, revelam também a individualidade literária dessa “mulher e intelectual, que indissoluvelmente ligada a Jorge de Sena, se afirmou sempre, de modo singular, livre e autónoma”, e, como escreveu ao marido, foi aprendendo por si mesma e “aproveitando da experiência para um dia, não sei quando, colher os frutos”.
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P.S.: A ideia inicial era abordar Jorge de Sena e sua obra, que ecoaram em minha formação universitária, entre 1971-1975, no curso de Letras da FCL de Araraquara, cidade onde nasci e morei – sem nem saber, naquela época, que a apenas 650 metros vivia a ilustre família portuguesa. Quando Sena foi para os EUA, Jorge Cury, que era seu assistente, assumiu a cadeira de Literatura Portuguesa – foi um dos fundadores, em 1983, do Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena – e com esse professor conheci a obra do ilustre luso-brasileiro. Enquanto rememorava aqueles tempos e lia poemas de Sena, além de muitos estudos sobre sua obra, fui surpreendida com a descoberta de alguns poucos estudos e informações em necrológios sobre a história de vida e a obra da centenária Mécia de Sena e a acolhi como “protagonista” neste texto, para ao menos apresentar a enorme mulher que, tendo escolhido viver discretamente e “para sempre” com um homem que sabia “raro”, se me revelou, em alguns frutos da experiência, seu imenso legado como autora da escrita de si e de seu tempo: uma escrita de resistência.