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SÓROR JUANA INÊS DE LA CRUZ E O SUBVERSIVO “AMOR ÀS LETRAS” / MARIA MORTATTI

“Décima musa”, “Fênix da América”, “primeiro grande expoente da cultura colonial mexicana”,  “primeira feminista das Américas”, “precursora e profetisa do feminismo mais refinado da atualidade”, “última grande escritora do Barroco hispânico”, são alguns epítetos utilizados em referência à poetisa, dramaturga e filósofa mexicana (nova-espanhola) Juana Inês de La Cruz (12.11.1648/1651 – 17.04.1695). 

Filha ilegítima de um oficial espanhol e de uma criolla (descendente de espanhol, nascida na América colonial), Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana nasceu na cidade de San Miguel Nepantla, próxima à Cidade do México, na época capital do Vice-Reino da Nova Espanha (1535 – 1821). Como ela relata em uma de suas obras de caráter autobiográfico – Resposta da poetisa à mui ilustre Sor Filotea de la Cruz – aprendeu a ler e escrever aos três anos de idade; com seis ou sete anos insistiu com a mãe que a levasse, em trajes masculinos, para cursar universidade na Cidade do México. Não tendo conseguido, desforrou “seu desejo lendo muitos livros da biblioteca do avô” paterno. Ainda adolescente, foi para a capital morar com parentes e continuou, como autodidata, estudando línguas, ciência, filosofia, teologia, entre outros assuntos que eram exclusividade dos homens. Em 1664, o vice-rei a convidou para a corte como dama de companhia e, posteriormente, submeteu seu conhecimento a testes com cerca de 40 renomados estudiosos. Tornou-se, então, admirada e conhecida pela memória, inteligência e erudição. Com aproximadamente 16 anos de idade, ingressou como religiosa no Convento das Carmelitas Descalças. Pouco tempo depois, mudou-se para Convento de Santa Paula, da Ordem de São Jerônimo, onde fez os votos de freira e permaneceu na clausura monástica até morrer de tifo, contraído quando cuidava de outras irmãs do convento. 

Não tinha vocação, mas escolheu a vida monástica movida pelo anseio de “ler e mais ler, de estudar e mais estudar, sem outro mestre que os próprios livros” e pelo desejo  de “viver sozinha (...) e não ter ocupação obrigatória” – tinha “total aversão ao matrimônio” – nem “rumor da comunidade” que atrapalhasse a liberdade e o sossego de seus estudos. Recusou, assim, posições que, na época, eram destinadas às mulheres – ser esposa ou cortesã –, para se dedicar a atividades masculinas, restritas às universidades e às ordens religiosas. 

Em sua cela no convento, reuniu uma imensa biblioteca – considerada uma das maiores do Novo Mundo –, uma coleção de instrumentos científicos e musicais, manteve contato com outros estudiosos e membros influentes da corte e contava com a amizade, proteção e mecenato do vice-rei e da vice-rainha da Nova Espanha. Escreveu e teve publicados poemas líricos e satíricos, peças de teatro, ensaios filosóficos, serviços religiosos encomendados para festividades da Igreja e do Estado. Foi a primeira mulher nascida na América a publicar um livro: Inundación Castálida de la Única Poetisa, Musa Décima, sóror Juana Inés de la Cruz, religiosa profesa en el monasterio de San Gerónimo de la imperial ciudad de México, que en varios metros, idiomas y estilos, fertiliza varios asuntos con elegantes, sutiles, claros, ingeniosos, útiles versos, para enseñanza, recreo y admiración (Madrid, 1689), dedicado à vice-rainha D. María Luisa Conçaga Manrique de Lara, Condessa de Paredes. 

A dedicação de Sóror Juana às artes e à ciência, sua ousadia teológica, a insubmissão às regras de um mundo dominado por homens e pela religião e sua defesa da educação das mulheres desagradavam a Igreja católica. A culminância desse “desagrado” se deu com o episódio que originou uma grande polêmica, além de críticas e ameaças diretas a Sóror Juana, feitas pelo bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, na Carta Atenagórica – assinada com o pseudônimo de Sor Filotea da Cruz. Nessa carta, o bispo elogiava o conhecimento da autora no comentário a ela encomendado sobre o Sermão do Mandato (1650), do Padre Antônio Vieira, mas criticava severamente sua dedicação aos assuntos profanos, recomendando que os abandonasse para se dedicar aos assuntos do convento. No ano seguinte, Sóror Juana publicou Respuesta da poetisa à mui ilustre Sor Filotea de la Cruz (Resposta da poetisa à muito ilustre Sor Filotea de la Cruz), com argumentos racionais em defesa de sua produção literária sobre assuntos profanos e da posição da mulher como intelectual. Sob ameaça da acusação de heresia, nos últimos anos de vida parou de escrever e doou sua biblioteca, instrumentos científicos e musicais e outros bens. Apresentou depois à Santa Inquisição pedido de misericórdia e perdão, dedicando-se, até a morte, a duras penitências e aos serviços de caridade. 

Entre os mais de 400 textos que Sóror Juana escreveu, estudiosos de sua obra e alguns críticos literários destacam a importância de: “Primero sueño” (“Primeiro sonho”) – com 975 versos, publicado por volta de 1685 –, que aborda a busca incontida da alma pelo conhecimento; e Respuesta a Sor Filotea, publicada no terceiro volume das obras completas, Fama y Obras Posthumas del Fénix de Mexico (Fama e Obras Póstumas da Fênix do México), editado por Juan Ignacio de Castoreda (Madri, 1700; 2ª ed. 1714.)

Ao longo do século XX, a vida e a obra da "Fênix da América" foram “redescobertas” e divulgadas em outras publicações, em especial: a do poeta e intelectual mexicano Alfonso Méndez Plancarte, publicada entre 1951 e 1957; e a do escritor mexicano Octavio Paz, Sor Juana Inés de la Cruz o Las trampas de la fe (Sóror Juana Inês de La Cruz e as armadilhas da fé), de 1982, que contém biografia intelectual e análise da obra de Sóror Juana. É considerada “a obra fundamental para entendê-la como poetisa, filósofa, 'primeira feminista das Américas' e pioneira na 'posição do poeta moderno frente ao cosmos, que depois, dois séculos mais tarde, Mallarmé vai revelar num poema essencial'”.

No Brasil, a primeira tradução de um poema – “El divino narciso” – de Sóror Juana foi publicada em 1945, pelo poeta Manuel Bandeira. O livro Letras sobre o espelho (Iluminuras, 1989), organizado e apresentado por Tereza Cristófani Barreto, contém poemas de Sóror Juana com traduções da organizadora e de Vera Mascarenhas de Campos. Em 2023, foi publicada a coletânea Poesia selecionada (Machado), com tradução de Alex Cojorian e apresentação de Sara Poot-Herrera. Mais recentemente, devido aos avanços dos movimentos feministas e ao debate sobre os direitos das mulheres, dados biográficos, textos e análises da obra de Sóror Juana vêm sendo divulgados em vários idiomas, em sites na Internet, artigos e estudos acadêmicos, além de filme, documentário e série em streaming.  

Conseguiram julgar, acusar e silenciar temporariamente Sóror Juana Inês de La Cruz, porém, passados mais de três séculos, permanece viva sua defesa do direito das mulheres à educação e ao conhecimento. A obra excepcional que criou, ultrapassando os limites daquele contexto colonial americano, continua fecundando a esperança de que as mulheres não tenham de pedir permissão para existir, pensar, estudar e realizar sua vocação intelectual e seu subversivo “amor às letras”.

Maria Mortatti – 18.04.2026


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GERMAINE KELLERSON: UMA POETA E PACIFISTA FRANCESA / MARIA MORTATTI

A poeta, escritora e pacifista francesa Germaine Kellerson (Périgueux, 1890 – Sarliac, 1978) nasceu e viveu da região de Périgord, no Sudoeste da França. Em esparsas informações disponíveis na Internet, seu nome é mencionado como filha do industrial e inventor Francisque Chaux, esposa do professor universitário Joseph Kellerson – com quem teve dois filhos, Robert e Francis –, humanista, “embaixadora da humanidade”. No contexto de instabilidade política da Terceira República Francesa (1870 – 1940)  e nos períodos conturbados da Primeira Guerra Mundial, do entreguerras, da ascensão do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, ela trabalhou intensamente em movimentos em defesa da paz, da liberdade, dos direitos das mulheres e do voto feminino e produziu a obra literária, fazendo sua voz ecoar para além dos limites regionais, assim como outros escritores franceses. 

Entre as décadas de 1920 e 1950, fundou o Centro da Nova Europa e o Clube de Pequenos Europeus de Paris; presidiu a Aliança Federalista de Mulheres pela Paz, a União Econômica e Federal Europeia e a Liga dos Estados-Unidos da Europa; participou, como representante francesa, do Congresso da Liga Internacional de Mulheres pela Paz, em Dublin, Irlanda, da primeira reunião da Liga de Ação Feminina pelo Sufrágio das Mulheres, em Paris, proferiu palestras literárias na Sociedade de Escritores Provinciais e se correspondeu com escritores, entre os quais o alemão Thomas Mann. Também publicou textos ou teve sua obra divulgada em jornais e revistas, como: La Voix des Femmes (A voz das Mulheres), jornal “feminista, pacifista, socialista e internacionalista”; L'Éveil des Peuples (O Despertar do Povo), jornal fundado em 1932 pelo católico progressista Marc Sangnier; L'Egyptienne (A Egípcia): “revista mensal: feminismo, sociologia, artes”; L'Intransigeant (O Intransigente), jornal fundado em 1880 – inicialmente de esquerda e, na década de 1920, de direita; e nos periódicos Hommes et Mondes (Homens e Mundos), L'Aube (Alvorecer), La Jeune République (A Jovem República), La Voie de la Paix (A Via da Paz).

É autora de seis livros de poesia e prosa – ilustrados e com várias edições, alguns encontrados em sebos ou digitalizados pela Sociedade FeniXX –, além de prefácios, ensaios e biografias. Seu livro de estreia literária, Inquiétudes – poèmes en prose (Inquietudes – poemas em prosa) (1929), com prefácio do escritor André Lamandé e litografias de Lucien de Maleville, foi publicado em Paris, pela Éditions La Caravelle, em edição de “grand luxe” e tiragem de 200 exemplares. Na década de 1930, foram publicados Le chant de la vie – roman (O Canto da Vida) (1935), por Corréa Éditeur, Paris, dedicado aos dois filhos da autora e aos futuros netos; e Rose-Pimpim – roman pour grandes fillettes (Romance para meninas grandes), pela Édition du Périgord Noir. Nas década de 1940, foram publicados Poèmes de la fin du jour (Poemas do fim de dia) (1943), com prefácio do poeta Charles Vildrac, pela editora Pierre Fanlac, de Périgueux, na série Le Cahiers de Province; e Ne pas se taire..., souvenirs des temps maudits (Não se cale..., lembranças de tempos malditos) (1946), pela Éditions du Périgord Noir, contendo relatos de testemunhos pessoais do período sombrio da guerra. Seu último livro, Le Journal de Jeantou (O diário de Jeantou) (1951), foi publicado pela Librairie Gedalge, Paris, com a dedicatória: “Em memória de Antoinette Lamandé, que era minha amiga e Mané do pequeno Jeantou”.

Nas palavras do historiador de Périgueux, Jean-Claude Bonnal, “É antes de tudo a poesia que permitirá a essa grande humanista transmitir ternura e generosidade”. Para o historiador, escritor e poeta Paul Mourousy, "Esta mulher cujo coração, sensibilidade e inteligência escolheram entre o egoísmo do artista e o sacrifício do apóstolo, trabalha noite e dia pela paz. Ela faz parte desta elite que transmite uma tocha da qual emergirá, queiramos ou não, o gênio e a felicidade dos futuros europeus”. Para o escritor André Lamandé, prefaciador de Inquiétudes, esse livro: "é como um tenro ninho de pombas feridas pelo amor" que “é um estado permanente, uma invasão do ser por inteiro – espírito e carne”. Nas palavras do poeta e escritor Charles Vildrac no prefácio de Poèmes de la fin du jour, “a poesia de Madame Germaine Kellerson é despojada de artifícios vãos e seduções da moda (...) é pela qualidade do timbre que ela nos toca.”  Segundo comentários publicado nos jornais La République e La Femme de France (A mulher da França)O Canto da Vida é um “livro angustiante” em que, contra os perigos de seu tempo, a voz da autora “subiu tão pura e tão alta”.

Apesar desses registros e reconhecimentos de sua atuação e sua obra, Germaine Kellerson é ainda pouco conhecida na França e desconhecida no Brasil e em outros países. Foi-me apresentada pelo poeta e pesquisador franco-brasileiro Michel Thiollent, por meio dos livros Inquiétudes e Poèmes de la Fin de Jour, cuja leitura me instigou a buscar, reunir e fazer tradução livre de informações dispersas em sites da Internet e de títulos e trechos de livros disponíveis em sebos ou bibliotecas digitais. Como a de muitas mulheres que se dedicaram à defesa do direito à voz, a produção literária de Germaine Kellerson ainda está por ser traduzida, estudada e avaliada no contexto de efervescência artística e intelectual de sua época e como representante não apenas da literatura regional de Périgord, mas também da escrita feminina francesa em meio às vozes masculinas das vanguardas europeias do início do século XX, como surrealismo, dadaísmo, cubismo/futurismo, modernismo.

Não se podem calar as inquietudes, o canto da vida, as lembranças de tempos sombrios, o amor como “estado permanente” também na busca da paz, que ecoam, ainda hoje, na voz de Germaine Kellerson, que assim deixa registrado em seu “Testament” poético e humano, no livro Poèmes de la Fin du Jour: “Lorsque je serai morte, reste fidèlement l’écho vivant de mon message : ‘Il n'est pas d'autre verité que celle de savoir aimer’.” (“Quando eu morrer, permaneça fielmente o eco vivo da minha mensagem: ‘Não há outra verdade senão a de saber amar’.”)

Maria Mortatti – 26.03.2026


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MÉCIA DE SENA: UMA ESCRITA DE RESISTÊNCIA / MARIA MORTATTI

 A escritora, tradutora, epistológrafa e professora portuguesa Maria Mécia de Freitas Lopes (Leça da Palmeira, 16.03.1920 – Los Angeles, 28.03.2020), de família de músicos e historiador, aprendeu piano e línguas estrangeiras, leu clássicos da literatura, formou-se em piano pelo Conservatório de Música do Porto e em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Lisboa, foi professora do ensino secundário, traduziu clássicos da literatura – assinando seus primeiros trabalhos como Freitas Lopes. Em 1949, casou-se com o poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor Jorge Cândido de Sena (Lisboa 02.11.1919 – Santa Barbara, Califórnia, 04.06.1978), também de família da alta burguesia portuguesa, tocava piano, era leitor e poeta desde jovem, engenheiro civil de formação e profissão, que se tornou tradutor de dezenas de obras em vários idiomas e professor catedrático na área de literatura em faculdades no Brasil – naturalizou-se brasileiro em 1963 –, e em universidades nos Estados Unidos da América. 

Mécia dedicou sua vida à missão de acompanhar o marido e apoiar sua profícua carreira literária e intelectual. Além de “par amoroso”, formavam “uma equipa”, como ela mencionou em entrevista. Nas palavras dele, Mécia era um “anjo eficaz” e “colaboradora literária”: revisora, conselheira, organizadora de suas atividades poéticas, intelectuais e culturais como conferencista no Brasil e no exterior, crítico de teatro e de literatura, relações com editoras. Ao mesmo tempo em que cuidava dos nove filhos, ela fazia traduções, revisões de livros e de provas para a editora Livros do Brasil, onde o marido era consultor literário, e escrevia diários e muitas cartas tanto para Jorge – quando de suas andanças pelo Brasil e Europa – quanto para notáveis intelectuais, poetas, escritores, críticos portugueses e de outros países.

Mércia e Jorge de Sena moraram em Lisboa até 1959, quando ele se exilou no Brasil. Após participação em tentativa fracassada de golpe contra a ditadura de Salazar e frustrado com o clima literário em Portugal, em viagem ao Brasil para participar no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado na Bahia, Jorge de Sena aceitou o convite para lecionar Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Assis (SP) e, em 1961, outro convite para lecionar Literatura Portuguesa na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Araraquara (SP). O casal, então com sete filhos, mudou-se para Araraquara, onde nasceram duas outras crianças. Nessa faculdade, Jorge de Sena pôde se dedicar à sua vocação literária. Obteve o doutoramento em Letras e a livre-docência, foi nomeado catedrático de Teoria Literária e Literatura Portuguesa, escreveu a tese Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular, o livro de poemas Metamorfoses, os contos de Novas Andanças do Demónio, a novela O Físico Prodigioso, e iniciou o romance Sinais de Fogo.  Em 1965, no início da ditadura militar no Brasil, a família se mudou para os Estados Unidos da América. Jorge de Sena aceitou convite para lecionar Literatura de Língua Portuguesa na Universidade de Wisconsin, onde, em 1967, foi nomeado catedrático do Departamento de Espanhol e Português. Em 1970, como catedrático efetivo, passou a lecionar Literatura Comparada na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, tentou regressar a Portugal, mas não foi convidado por nenhuma universidade ou instituição cultural portuguesa e decidiu continuar a viver e trabalhar nos EUA, onde morreu de câncer, com 58 anos de idade. 

Jorge de Sena, o notável luso-brasileiro, que dizia escrever "como se escrever fosse respirar", deixou uma obra imensa – entre poesia, prosa, peças de teatro, ensaios, correspondência –, recebeu reconhecimentos importantes, como o Prêmio Internacional de Poesia Etna-Taormina, pelo conjunto da sua obra poética, além de homenagens póstumas, como a do Jorge de Sena Center for Portuguese Studies, na Universidade da Califórnia, e o Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena, na Faculdade de Ciências e Letras, da Unesp – campus de Araraquara.

Mércia de Sena permaneceu nos EUA até morrer, dias depois de completar 100 anos. A “viúva prodigiosa”, segundo o historiador Luís Ricardo Duarte, dedicou o tempo restante de vida a organizar e publicar o espólio do marido, incluindo índice de suas poesias, diários,  cartas trocadas entre eles e entre Jorge de Sena e personalidades literárias, e representava o marido em homenagens póstumas, como a inauguração, em 1983, do Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena em Araraquara.

Desde que se conheceram, Mécia e Jorge de Sena trocaram regularmente, durante mais de 30 anos, milhares de cartas, intesificando-se com as numerosas viagens  dele pelo Brasil e Europa, nos 19 anos de autoexílio. Segundo a historiadora portuguesa Maria Otília Pereira Lage, autora do livro Mécia de Sena e a escrita epistolar com Jorge de Sena: Para a história da cultura portuguesa contemporânea, publicado em Portugal em 2015, Mécia admirava escritoras que se dedicaram ao gênero epistolar, em especial a neozelandesa Catherine Mansfield: «A única escrita que eu invejei». Lage classificou as cartas em três séries: as dos anos 1940, publicadas na antologia Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor)  Jorge de Sena e Mécia de Sena, organizada por Mécia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982);  correspondência entre o casal durante o período no Brasil, entre 1959 e 1965 – que ela denominava «Vita Nuova» –, organizada por Lage e publicada em Portugal em 2013;  e a correspondência do período em que viveram nos EUA, que se encontra no espólio de Jorge de Sena sob a guarda da Biblioteca Nacional de Portugal. A correspondência entre o casal ilustra “traços singulares de suas biografias e identidades intelectuais, uma memória viva de sua época e facetas marcantes, em diferentes períodos, da cultura portuguesa contemporânea de que ambos são, diferenciadamente, figuras destacadas.” 

Além das cartas e diários, na produção literária de Mécia de Sena se encontra a obra Flashes, “um livro de amor», iniciado em 1980, com mais de 600 páginas, das quais foram publicados apenas alguns excertos. Segundo a historiadora portuguesa, são narrativas curtas de vivências, memórias, acontecimentos marcantes, como “um diálogo vivo, constante e amoroso com Jorge de Sena, interlocutor privilegiado e omnipresente” nesse livro, em que a autora traça “uma trajectória de vida feminina (projectos, problemas, realizações, anseios...) ancorada numa grande diversidade de redes sociais e culturais”. 

Para Jorge de Sena, com a correspondência entre eles podiam “estar a fazer uma escrita de felicidade”. Para Mécia de Sena, as cartas, os diários e os flashes representavam uma “escrita de libertação”. E, como Lage destaca, revelam também a individualidade literária dessa “mulher e intelectual, que indissoluvelmente ligada a Jorge de Sena, se afirmou sempre, de modo singular, livre e autónoma”, e, como escreveu ao marido, foi aprendendo por si mesma e “aproveitando da experiência para um dia, não sei quando, colher os frutos”. 

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P.S.: A ideia inicial era abordar Jorge de Sena e sua obra, que ecoaram em minha formação universitária, entre 1971-1975, no curso de Letras da FCL de Araraquara, cidade onde nasci e morei – sem nem saber, naquela época, que a apenas 650 metros vivia a ilustre família portuguesa. Quando Sena foi para os EUA, Jorge Cury, que era seu assistente, assumiu a cadeira de Literatura Portuguesa – foi um dos fundadores, em 1983, do Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena – e com esse professor conheci a obra do ilustre luso-brasileiro. Enquanto rememorava aqueles tempos e lia poemas de Sena, além de muitos estudos sobre sua obra, fui surpreendida com a descoberta de alguns poucos estudos e informações em necrológios sobre a história de vida e a obra da centenária Mécia de Sena e a acolhi como “protagonista” neste texto, para ao menos apresentar a enorme mulher que, tendo escolhido viver discretamente e “para sempre” com um homem que sabia “raro”, se me revelou, em alguns frutos da experiência, seu imenso legado como autora da escrita de si e de seu tempo: uma escrita de resistência.

Maria Mortatti  – 19.03.2026


 

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NA TRAVESSIA DO DESERTO DO MUNDO, COM SOPHIA ANDRESEN / MARIA MORTATTI

“Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar/ (...) Nada pode apagar/ O concerto dos gritos” são versos da célebre “Cantata da Paz”, da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (06.11.1919 – 02.07.2004). O poema foi escrito para a vigília em que ela e um grupo de católicos progressistas, reunidos na noite de 31 de dezembro de 1968, na igreja de São Domingos, em Lisboa, manifestavam-se pela paz e contra as guerras. O poema faz referência à bomba de Hiroshima, à guerra do Vietnã, à guerra colonial portuguesa na África – iniciada durante o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar, em Portugal. Foi musicado e gravado, em 1970, pelo ex-padre Francisco Fanhais, tornando-se uma das canções de protesto mais conhecida em Portugal até a Revolução do Cravos, em 25 de abril de 1974, que encerrou a ditadura do Estado Novo.

De formação aristocrática e católica, Sophia Andresen dirigiu movimentos universitários na Universidade de Lisboa – onde cursou, sem concluir, Filologia Clássica –, participou de círculos literários portugueses com escritores renomados, como Jorge de Sena, foi indicada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista e foi a primeira poetisa portuguesa laureada com o Prêmio Camões (em 1999), além de outros prêmios e homenagens que recebeu. 

Publicou dezenas de livros – também para crianças – de poesia, contos, peças de teatro, ensaios e traduções de clássicos da literatura inglesa, italiana, francesa, grega e teve sua poesia traduzida para italiano, inglês, alemão. Conforme críticos literários e estudiosos de sua obra, a poesia andreseniana é marcada pela influência clássica, tratando de forma enxuta, clara e com equilíbrio formal de temas clássicos, existenciais e políticos, como justiça, moral humanista, natureza, mar, memórias, amor. 

Manteve também diálogo com escritores e culturas de outros países, entre os quais o Brasil, que visitou nos anos 1960. Viajou por alguns estados do País e se encantou com as belezas naturais, com o português brasileiro, com a cidade de Brasília e com poetas, como João Cabral de Mello Neto e Manuel Bandeira – aos quais dedicou poemas de seu livro Geografia, de 1967 –, Cecília Meireles – sobre a qual escreveu ensaio e poema – e Murilo Mendes, entre outros.

Foi por meio da Antologia da poesia portuguesa contemporânea (Ohno-Kempf, 1982), organizada pelo poeta e escritor brasileiro Carlos Nejar, que conheci a poesia de Sophia Andresen. Entre os de 40 autores apresentados pelo organizador, estão 12 de seus poemas, recolhidos de livros publicados de 1944 e aos anos 1970. São poemas breves, sintéticos, de beleza contundente, como “Cante jondo”: “Numa noite sem lua o meu amor morreu/ Homens sem nome levaram pela rua/ Um corpo nu e morto que era o meu.” Continuou publicando até alguns anos antes de sua morte e, aos poucos, pude conhecer e me encantar com outros poemas que li em alguns de seus livros mais recentemente publicados por editoras brasileiras, como Coral e outros poemas (Companhia das Letras, 2018), com seleção do poeta Eucanaã Ferraz e em que se encontra um de meus poemas preferidos: “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, de Livro Sexto, de 1962. 

Depois de ver, ouvir e ler Sophia Andresen, não se pode ignorar o concerto poético que ela nos oferece. Nestes tempos de tantas outras guerras, tragédias humanitárias e povos destruídos, seu apelo pela paz e liberdade e a beleza de sua poesia continuam ecoando e nos convocando para com ela “atravessar o deserto do mundo/ Para enfrentarmos juntos o terror da morte/ Para ver a verdade para perder o medo.”

Maria Mortatti – 10.03.2026



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ANÁLISE DA CONFIGURAÇÃO TEXTUAL - DOZE VARIAÇÕES DO MÉTODO / MARIA MORTATTI

 

Coletânea reúne ensaios que mostram como a abordagem metodológica proposta pode produzir sentidos e ampliar a leitura e a interpretação de textos em diferentes áreas

O texto, de qualquer tipo, forma e conteúdo, carrega marcas de seu tempo e contexto, de seus autores e leitores previstos, das motivações e finalidades que o atravessam. Compreender essas marcas é tarefa que exige olhar atento e ferramentas capazes de produzir e compreender sentidos, que podem passar despercebidos à primeira vista. É nesse horizonte que se insere Análise da configuração textual – Doze variações do método, de Maria do Rosário Longo Mortatti, que apresenta doze ensaios em torno de sua proposta metodológica de leitura e interpretação, mostrando-a, na prática. 

Desenvolvido ao longo de décadas de pesquisas da autora, o método de análise da configuração textual parte do princípio de que é possível produzir interpretações além dos significados mais aparentes do conteúdo de um texto, especialmente verbal, quando considerados os múltiplos aspectos interrelacionados que constituem seus sentidos. Mortatti mostra, em seus ensaios, como essa abordagem de característica interdisciplinar pode ser aplicada a textos de tipos, gêneros e finalidades diversos — escolares, literários, históricos, filosóficos, entre outros. A análise, como observa Michel Thiollent, professor aposentado da UFRJ, permite compreender os efeitos de inclusão, exclusão, dominação e marginalidade que atravessam a produção textual em diferentes épocas e contextos.

Ao romper com a escrita acadêmica convencional, Mortatti propõe um diálogo direto com o leitor, convidando-o a participar de um “banquete de elogio ao texto”. Dessa forma, a autora reafirma a importância da interpretação crítica e contextualizada, ao mesmo tempo que oferece uma ferramenta útil para professores, pesquisadores, estudantes e todos aqueles que buscam aprofundar a compreensão e a prática dos processos de leitura e escrita.

“O objetivo desta coletânea de ensaios não é apresentar uma teoria sobre o método de análise da configuração textual nem ensinar como se deve aplicá-lo, mas deixar o método falar e tocar, mostrando o modo como a autora faz, em vez de como se deve fazer”, registra a autora. “Como respostas a antigas e recentes solicitações e motivações, são apresentadas doze variações em torno do tema de suas constantes investigações de leitora e autora sobre o ‘enigma’ do texto. Pretende-se mostrar que, por meio desse método, é possível encontrar sentidos de um texto que não se encontrariam sem ele e, a partir de sua utilização, pode-se reconhecer o que ele mesmo vale. Ao menos para os que, aceitando o convite para o diálogo, acompanhem as páginas que seguem, como partícipes de um banquete de elogio ao texto.”

Sobre a autora – Maria do Rosário Longo Mortatti nasceu em Araraquara (SP), em 06/11/1954. É poeta, escritora e professora titular na Unesp – Marília. É licenciada em letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (encampada pela Unesp), mestre e doutora em educação pela Unicamp, livre-docente em alfabetização e presidente emérita da Associação Brasileira de Alfabetização. Foi professora de língua portuguesa e literatura na educação básica. Atua no curso de pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação da Unesp – Marília. É autora de livros, artigos e ensaios sobre história da educação, alfabetização e ensino de língua e literatura e também de livros de contos, crônicas e poesia e do blog Literatura & Educação. Recebeu o Prêmio Jabuti em 2012, na categoria Educação, pelo livro Alfabetização no Brasil: uma história de sua história (Oficina Universitária/Editora Unesp).

Título: Análise da configuração textual: doze variações do método
Autora: Maria do Rosário Longo Mortatti
Número de páginas: 190  
Formato: 13,7 x 21 cm
Preço: R$ 69
ISBN: 978-65-5711-291-5


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A NOITE LILÁS / LA NUIT LILAS / MARIA MORTATTI

Maria Mortatti, poeta, escritora e professora universitária, lança seu sétimo livro de poemas, A noite lilás / La nuit lilas, em edição bilíngue – português / francês –, pela Scortecci Editora.

Nesse novo livro, a autora reuniu 55 poemas – originais e respectivas versões. Alguns foram escritos em português e vertidos para o francês. Em outros, o processo foi inverso. Na mistura das duas línguas, reverberam vivências íntimas despertadas na noite lilás, imagem poética em que se transfiguram o sentido de um encontro (in)esperado e o entrelaçamento amoroso que se vai configurando entre a consciência da fugacidade de cada instante e o desejo de continuidade. “Na noite lilás, os sons se sucedem em melodia tocada pelo arco deslizando incessantemente sobre as cordas de um violino”, nas palavras do autor do posfácio.

Sobre a autora

Maria Mortatti é poeta, escritora e professora titular na Universidade Estadual Paulista – campus de Marília. É licenciada em Letras, mestre e doutora em Educação, livre-docente em Alfabetização e presidente emérita da Associação Brasileira de Alfabetização. Além de livros, artigos e ensaios sobre história da educação, alfabetização e ensino de língua e literatura, é autora de livros de contos, crônicas e poesia: Breviário amoroso de Sóror Beatriz, pela Patuá; e, pela Scortecci Editora: a trilogia Essa Mulher – Mulher emudecida, Mulher umedecida, Mulher enlouquecida –; Amor a quatro mãos; O primeiro livro de Arthur; Prosa de Leitora – sobre livros, autores e outros acepipes – v.1 e v.2; Mulher qualquer, mulher – poemas. Recebeu o 54º. Prêmio Jabuti – Educação, da Câmara Brasileira do Livro, em 2012, pelo livro Alfabetização no Brasil: uma história de sua história (Editora Unesp).

SERVIÇO

A noite lilás – poemas / La nuit lilas – poèmes – Maria Mortatti

Edição bilíngue – Português / Francês 

Posfácio / Postface – Michel Thiollent

Scortecci Editora – Poemas – Formato 16 x 23 cm – 1ª edição – 2025 – 84 páginas

ISBN: 978-85-366-7047-8 

Mais informações: 

Livraria Scortecci: https://www.livrariascortecci.com.br/home.php 

Maria Mortatti: mariamortatti@gmail.com 






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ALBALAT E A ARTE DE ESCREVER / MARIA MORTATTI

No final do século XIX, o escritor, jornalista e crítico literário francês Pierre Marie Antoine Albalat (04.02.1856 – 21.09.1935) resolveu iniciar a publicação “do que tinha aprendido por si só”. Era já autor de livros de poesia, contos, romances e ensaios de crítica literária, secretário da direção do Journal des Débats e amigo de grandes escritores franceses de seu tempo. Entre 1899 e 1905, teve publicados pela editora francesa Armand Colin, quatro “manuais práticos e técnicos” de escrita literária que se tornaram clássicos do gênero: L’art d’écrire enseigné en vingt leçons  (A arte de escrever ensinada em vinte lições) (Armand Colin, 1899); La formation du style par l’assimilation des auteurs (A formação do estilo pela assimilação dos autores) (1901); Le travail du style enseigné par les corrections manuscrites des grands écrivains (O trabalho do estilo ensinado pelas correções manuscritas dos grandes escritores) (1903); Les ennemis de l'art d'écrire. Réponse aux objections de MM. F. Brunetlère, Emile Fagaet, Adolphe Brisson, Rémy de Gourmont, Ernest Charles, O. Lanson, Pélissîer, Octave Uzanne) (Os inimigos da arte de escrever. Resposta às objeções de ...) (1905). Recebeu por duas vezes o Prix Saintour: em 1904, por Le Travail du style ...; e, em 1914, por Comment il faut lire les auteurs classiques français
 
Criticando os manuais de escrita de sua época, que, por não fazerem demonstrações de estilo, não ensinavam a técnica da escrita, o autor se propunha a “ser guia, para aqueles que não podem ter outros”. Seu projeto consistia em ensinar a escrever “quem quer que não o saiba, mas que tenha o que é preciso para saber”. Por meio de comentários, exemplos e exercícios, trata dos princípios essenciais da arte do estilo, como, entre outros: dom e talento para escrever, importância de leitura de bons autores para a assimilação do estilo por imitação, amplificação ou pastiche. processos de escrita.
 
Os manuais geraram controvérsias e objeções de seus contemporâneos, às quais o autor respondeu em Les ennemis de l'art d'écrire..., mas tiveram ampla circulação na França e continuam sendo editados até os dias atuais. Os dois primeiros volumes foram traduzidos em Portugal pelo filólogo, gramático, lexicógrafo, tradutor e escritor português António Pereira Cândido de Figueiredo (19.09.1846 – 26.09.1925), cuja obra mais conhecida é o Novo dicionário da língua portuguesa, publicado em 1899 e reeditado até 1996.  A primeira edição portuguesa de A arte de escrever... foi publicada em 1913, pela Livraria Clássica Editora (Lisboa) e reeditada em 1921 e 1944; e a de A formação do estilo..., em 1912(?), também com reedições. Não localizei informações sobre traduções dos outros volumes, mas os dois primeiros circularam no Brasil especialmente na primeira metade do século XX. Foram usados para o ensino de literatura em cursos ginasiais e também se tornaram leitura de referência para autores de manuais de literatura e escritores. A arte de escrever..., por exemplo, é citado pelo Padre Antonio da Cruz, professor do colégio do Caraça (Mariana/MG), em seu manual Arte da composição e do estilo (1949), e por escritores, como Monteiro Lobato, que ora critica os “moldes de estilo”, ora explicita, em seus conselhos sobre a escrita e a leitura, a influência das lições do estudioso francês, e também numa carta da personagem Célia, de Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, em que ela pede ao marido que lhe traga de Paris um exemplar do livro. 

No Brasil, durante a segunda metade do século XX, com as mudanças no ensino de literatura, esses manuais (em francês ou em português) ficaram praticamente esquecidos para sua finalidade original. Alguns exemplares podiam ser encontrados em sebos – onde comprei alguns deles, por preços irrisórios, para minhas pesquisas nos anos 1990 –, ou em acervos históricos, para uso por pesquisadores e estudantes em trabalhos acadêmicos e artigos sobre história da educação e dos manuais escolares. Mais de 120 anos depois das primeiras edições francesas, esses manuais continuam atuais. Recentemente, foi lançada nova edição brasileira de A arte de escrever ensinada em vinte lições, pela editora Kírion, com tradução de Rodrigo Gurgel. Tem sido divulgado e usado principalmente como suporte para “oficinas de escrita criativa”, evidenciando o interesse de tantas pessoas de se tornarem escritores e publicarem livros em formatos físicos ou digitais. Se, por um lado, esse fenômeno contribui para a democratização e dessacralização da atividade literária, por outro, chama a atenção quando comparado com o decréscimo de número de leitores e relacionado com os avanços da inteligência artificial generativa, com robôs treinados, não para criações originais, mas para a geração automática – por meio de assimilação/imitação/repetição – de textos, imagens, músicas já existentes, com os quais são treinados por humanos. 
 
Em 1899, Albalat alertava em A arte de escrever: “Estamos inundados de livros. Que será a literatura , quando toda a gente a praticar?"; “essa doença de escrever, que nos invade e que fez desanimar o público”; “Toda a gente pode escrever?”; “Poderemos ensinar a escrever?”; “Devemos escrever?”; “Não haverá já bastante escritores?”. Em defesa de seus manuais de escrita e tentando conciliar possíveis contradições, ele mesmo responde: a literatura é uma vocação, um talento, um dom “que se possui por natureza, mas que se desenvolve depois pelo estudo daqueles que foram e serão sempre os mestres da literatura”. “A admiração conduz à imitação, e a imitação é um meio de assimilar as belezas alheias.” 
 
O que diria, então, Albalat, se estivesse vivo e tomasse conhecimento da "inundação" de livros e autores neste início do terceiro milênio? Ou de suas lições de escrita e estilo – ou as de seus imitadores – servindo de guia no treinamento dos robôs que geram textos, talvez até mais “perfeitos” do que os de humanos, mas muitas vezes meros plágios ou pastiches? Para a sorte dos mestres da literatura e dos leitores argutos e sensíveis, porém, Albalat também advertia sobre os perigos do pastiche, uma das técnicas que ele mesmo ensinava: “a imitação artificial e servil das expressões e dos processos de estilo de um autor” “não pode ser senão um exercício de ginástica literária”; “os escritores mais originais são os mais fáceis de pastichar”, mas “não se pode copiar a alma de um autor”, nem, por certo, nos casos de terceirização por robôs, nem, talvez, de textos psicografados por médiuns. 

No contexto atual, certas afirmações teóricas de Albalat – como a de a escrita ser mera transcrição da fala – estão superadas, e suas lições técnicas – como a assimilação/imitação – se tornaram questionáveis. Mas permanece a atualidade da questão de fundo: a arte de escrever literatura e a formação do estilo continuam sendo atividades específicas e profundamente humanas de criação, fruto de talento, inspiração e árduo trabalho intelectual e técnico de e sobre a linguagem... humana. 
 
Maria Mortatti – 24.08.2025
 

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COM O TEMPO - AVEC LE TEMPS / MARIA MORTATTI


Com o tempo

Com o tempo tudo se vai:
os anos de enganos,
as ilusões perdidas,
as perguntas sem respostas.

Quando tudo se foi
e exaustos nos encontramos
na rede estreita do destino,
esquecida toda a ciência,
almas se roçando em carne viva,
na urgência do instante,
enfim, aprendemos a amar.

26.01.2024


Avec le temps

Avec le temps, tout s’efface :
les années de tromperie,
les illusions perdues,
les questions sans réponse.

Quand tout s’est effacé
et, épuisés, nous nous retrouvons
dans le hamac étroit du destin,
toute science oubliée,
les âmes s’effleurant en chaire vivante,
dans l’urgence de l’instant,
enfin, nous apprenons à aimer.

26.01.2024


In: A noite lilás / La nuit lilas. Ed. bilíngue. Posfácio de Michel Thiollent, Scortecci Editora, 2025 


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MULHER / MARIA MORTATTI

 



Mulher

Bela e fera.
Beija e morde.
Bate e assopra.
Teme e deseja.
Luta e perde.
Chora e espera.
Perdoa e revida.
Purga e ri.
Perde e luta.
Sangra e goza.
A das flores.
A das dores.
Mulher qualquer,
mulher.

Maria Mortatti 

In: Mulher qualquer, mulher. Scortecci Editora, 2024.


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ROLAND BARTHES E O PRAZER DO TEXTO: É ISSO! / MARIA MORTATTI

"(...) as leituras da infância deixam nós a imagem dos lugares e dias em que as fizemos", escreve o francês Marcel Proust (10.07.1871-18.11.1922), no opúsculo Sobre a leitura (Sur la lecture), originalmente prefácio para sua tradução, em 1906, de Sesame and lilies (1865), um dos livros mais conhecidos do esteta inglês John Ruskin. 

Não só as da infância. Uma das experiências recentes de leitura me fez lembrar dessa constatação, de quando e por que li os primeiros volumes de À la recherche du temps perdu (Em busca do tempo perdido), de Proust, e dos lugares e dias de tantas outras leituras de que me lembrei quando o li. Uma, em especial, veio-me involuntariamente à memória, a do livro O prazer do texto (Le plaisir du texte), do escritor e crítico literário francês Roland Barthes (12.11.1915- 26.03.1980), com tradução brasileira de J. Guinsburg (Perspectiva, 198?). Li-o um ou dois anos antes do opúsculo de Proust. Foi indicado por um professor que eu admirava. O exemplar era emprestado da biblioteca da faculdade. 

Em um sábado à noite, talvez do ano de 1987, enquanto esperava o horário para um prazeroso passeio com os amigos, sentei-me na poltrona da sala, com lápis e papel ao lado, e comecei a ler como quem apenas se ocupa de uma distração. Aos poucos, porém, fui penetrando no texto. Levantei-me. Fui para cadeira da mesa de jantar. Aprumei-me. Comecei a anotar. Tudo era descoberta. Desisti do passeio, apesar da insistência dos amigos. Retomei a leitura e assim fui até a madrugada. Na memória ficou uma imagem: o prazer do texto, o prazer de desabotoar o primeiro botão da blusa... Não sei se as palavras de Barthes eram exatamente essas, mas assim gravei na memória. 

Anos depois, comprei um exemplar da tradução brasileira. Localizei o trecho. As palavras eram parecidas, mas o sentido se renovou prazerosamente. E assim foi numa outra noite de sábado, quase quatro décadas depois, quando escrevia o prefácio para o livro Cahier de poésie 3 / Caderno de poesia 3, de Michel Thiollent (Scortecci Editora). Reli o livro de Barthes e lá encontrei minhas anotações de antigos momentos de leitura e dos pequenos pormenores que fizeram renascer conexões intertextuais infinitas e angustiantes com outros autores, com “a desenvoltura que faz com que o texto anterior provenha do texto ulterior”, como as macieiras normandas de Gustave Flaubert que Barthes lê a partir de Proust. 

Aquele primeiro botão de sentido cintilou novamente. O prazer do texto é a intermitência. O que seduz é a cintilação da pele entre duas bordas. Assim é a descoberta da relação erótica com os livros que nos escolhem ou escolhemos. Assim foi também com esse livro de Barthes, que despertou em mim o desejo de conhecer sua vasta e sedutora obra. O que faz de um escrito um texto é sua vontade de fruição, seu brio, o ponto onde ultrapassa a tagalerice e arranca do leitor, não um juízo de valor – é bom ou ruim –, mas um juízo de fruição estética: “É isso!”. “O texto de prazer é Babel feliz”.

Maria Mortatti – 28.05.2025


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