Lélia Abramo (São Paulo, 08.02.1911 – 09.04.2004) foi uma premiada atriz de teatro, cinema e TV, produtora teatral, ativista política e cultural brasileira e autora do livro Vida e arte: memórias de Lélia Abramo – com prefácio do professor e crítico literário Antonio Candido, texto de orelha do ator e diretor teatral Sérgio Mamberti e publicado pela Fundação Perseu Abramo e Editora da Unicamp, em 1997. Por meio do relato da memória individual da formação intelectual e artística na família, da “conquistas e derrotas, doenças e amores censurados, sonhos e frustrações”, a autora dá a conhecer momentos importantes da história do Brasil, país onde viveu a maior parte da vida e realizou sua carreira teatral, e da Itália, onde teve de permanecer por 12 anos, durante a Segunda Guerra Mundial, anotando os acontecimentos em diários e agendas – muitas vezes “com as bombas caindo sobre nossas cabeças”. Suas lembranças e anotações, as peças, filmes, novelas em que atuou, as atividades que realizou como atriz e ativista e o registro escrito de suas memórias são também indicadores empíricos de sua contribuição para a memória coletiva.
Filha dos imigrantes italianos Vicenzo Abramo e Afra Iole Scarmagnan, irmã de figuras de destaque do jornalismo, artes, cultura e política do País, como Lívio Abramo, Athos Abramo, Fúlvio Abramo e Claudio Abramo, Lélia participou de grupos amadores de teatro e iniciou a carreira profissional de atriz aos 47 anos, na peça Eles não usam black tie, de Gianfrancesco Guarnieri, encenada no Teatro de Arena (SP). Desde então, teve atuação destacada ao longo de sua intensa e extensa carreira profissional, lembrada por seus personagens icônicos. Conviveu e contracenou com grandes nomes do teatro e da cultura brasileiras em diferentes momentos de sua carreira profissional. Participou, como atriz, de 23 peças de teatro de grandes dramaturgos nacionais e internacionais – como Jorge de Andrade, William Shakespeare, Federico Garcia Lorca, Bertolt Brecht, Samuel Beckett, Eugène Ionesco e Henrik Ibsen, Ésquilo –, participou de mais de uma dezena de declamações e leituras dramáticas e realizou atividades como diretora e produtora teatral. No cinema, atuou em 14 filmes, entre os quais, Vereda da salvação, O caso dos irmãos Naves, Beto Rockfeller, Joana, a francesa, Eles não usam black tie. Nas TVs Excelsior, Tupi, Globo e Manchete, participou de 27 telenovelas, 21 “casos especiais”, mais de 40 teleteatros, entre os quais, as novelas Meu pé de laranja lima e Pai herói; os “casos especiais” A casa de Bernarda Alba e O tempo e o vento.
Participou, ainda, de júris de concursos e de prêmios nacionais de dramaturgia, foi conferencista e palestrante em seminários sobre teatro e assuntos culturais, presidiu o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, contribuindo para a regulamentação da profissão – o que lhe custou a demissão da rede Globo e o primeiro infarto –, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, foi figura de destaque na luta contra a ditadura militar no Brasil, deu aulas para grupos de teatro comunitário na periferia da capital paulista e recebeu homenagens, entre as quais a de patronesse da Oficina Cultural Lélia Abramo, na cidade de Araraquara/SP, onde a família Abramo residira no final do século XIX e onde moravam sua meia-irmã Ângela Maria Abramo Longo, seus sobrinhos e sobrinhos-netos.
Pelas atuações e o conjunto de sua obra, Lélia Abramo recebeu mais de uma dezena de prêmios, tais como: Prêmio Saci e Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Prêmio Roquete Pinto, Prêmio Molière, Prêmio Governador do Estado.
Nas palavras de Antonio Candido, frente a tantas “quebras” do nosso mundo, “conforta ler a narrativa de uma vida como a de Lélia Abramo, que nunca vergou a espinha, nunca sacrificou a consciência à conveniência e desde muito jovem se opôs à injustiça da sociedade”. Nas palavras do crítico teatral Gianni Ratto (FSP, 1997): "O que me parece extraordinário em Lélia é a capacidade que ela tem de coordenar uma visão estético-crítica que sempre norteará seu trabalho com a postura sociopolítica que até hoje não a abandona, e, o que mais me surpreende, é que em todas as suas atitudes, talvez sem percebê-lo, é luminosamente suprapartidária". Uma mulher que, apesar das dificuldades que marcaram sua vida e arte, manteve a esperança, como ela mesma afirma nas palavras finais do livro, mencionando a amizade com duas crianças: “Eles serão cidadãos do século XXI. Espero que a aproximação de gerações tão díspares signifique que algo da memória e do passado possa ser mantido no coração do ser humano, como inspiração de solidariedade”.
Maria Mortatti – 29.04.2026








