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ANNE SEXTON – UMA POETA ESPIÃ / MARIA MORTATTI
JÚLIA LOPES DE ALMEIDA E A CADEIRA 41 DA ABL / MARIA MORTATTI
Júlia Lopes de Almeida não se tornou "imortal", mas sua obra continua viva e, desde as décadas finais do século passado, vem sendo cada vez mais lembrada justamente por ter sido apagada da história da Academia Brasileira de Letras e dos manuais de história da literatura brasileira. Não é caso isolado entre escritoras, mas certas singularidades lançam luzes sobre uma ineludível injustiça motivada pelo simples fato de ser mulher.
Filha de imigrantes portugueses – os professores Valentim José Silveira Lopes e Antonia Adelina do Amaral Pereira Lopes, proprietários de um liceu feminino –, a escritora, cronista e dramaturga Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida (24.09.1862 – 30.05.1934) nasceu na cidade do Rio de Janeiro e, estimulada pelo ambiente cultural em que cresceu, sempre demonstrou interesse pela literatura. Mudou-se com a família em 1870, para a cidade de Campinas/SP, onde morou até os 23 anos de idade. Em 1885, passando um período na cidade do Rio de Janeiro, ampliou contatos no ambiente cultural e literário da época e, a convite do poeta e jornalista Olavo Bilac (1865 –1918), integrou o corpo de redatores da revista literária A Semana, conheceu o poeta e dramaturgo luso-brasileiro Filinto de Almeida (1857 – 1945), com quem se casou em 1887, em Lisboa, e depois tiveram três filhos. o casal regressou ao Brasil, em 1888, e, após a proclamação da República, Filinto de Almeida assumiu a função de redator-chefe de O Estado de S. Paulo, e o casal se mudou para a cidade de São Paulo, onde permaneceu até 1895, relacionando-se com a intelectualidade paulista e sua crença na mudança social e cultural do país por meio da educação, da cultura, da leitura, do livro. Os contatos e relações de Júlia Lopes de Almeida com intelectuais, escritores e editores nas cidades brasileiras em que morou e nas cidades portuguesas de Lisboa e do Porto, foram importantes para a publicação e divulgação de seus livros e reconhecimento, em vida, de sua obra. Depois de viagens para Europa, Buenos Aires, África, entre outros, Júlia Lopes de Almeida morreu no Rio de Janeiro, com 72 anos de idade, vítima de malária.
Começou sua carreira literária publicando folhetins e contos em A Gazeta de Campinas. Em 1886, publicou seus primeiros livros: Traços e Iluminuras (em Lisboa); e, em parceria com sua irmã, Adelina Lopes Vieira, Contos Infantis: em verso e prosa – para uso das escolas primárias, pela Laemmert & Cia. (RJ), que é apontado pela pesquisadora Nelly Novaes Coelho como precursor da literatura infantil brasileira e também faz parte de meu acervo e de minhas pesquisas desde os anos 1990. Entre 1886 e 1932, a escritora publicou mais de 40 títulos, entre romances – a maioria em folhetins, depois em livro –, contos, crônicas, artigos de jornal, peças de teatro e textos para crianças. Além da colaboração em revistas e jornais, foi a escritora mais publicada entre fins do século XIX e início do século XX. Em contexto adverso para as mulheres, sobretudo para a profissionalização como escritoras, pois escrever era atividade destinada aos homens, ela conquistou sucesso editorial e reconhecimento, sem deixar de conciliar essa atividade pública com as de mãe e esposa e sua formação liberal, com causas femininas e abolicionista.
Júlia Lopes de Almeida foi a única mulher a participar do grupo de escritores e intelectuais que, por iniciativa do escritor Lúcio de Mendonça (1854 –1909), reuniu-se em sete sessões preparatórias para a fundação, em 20.07.1897, da Academia Brasileira de Letras (ABL). Na última sessão, o escritor Machado de Assis (1839 – 1908) foi aclamado presidente, o estatuto da ABL, inspirado na Académie Française de Lettres, estabeleceu a composição em 40 membros efetivos e perpétuos e 20 correspondentes estrangeiros e foi criado o lema "Ad immortalitatem" (“Para a imortalidade”), origem da classificação de seus membros como “imortais”. Em artigo de O Estado de S. Paulo, de dezembro de 1896, Lúcio de Mendonça propusera o nome de Júlia Lopes de Almeida para ocupar a Cadeira 3, o que não foi aceito pela maioria dos primeiros membros da ABL, pois, embora na época ela já fosse escritora bastante conhecida e respeitada pela crítica, era mulher... Decidiram, então, que a vaga seria ocupada pelo marido, Filinto de Almeida, na posição de fundador, e ele passou a ser considerado por alguns o “acadêmico consorte”, como relata a pesquisadora Michele Asmar Fanini, que também atribui a esse fato o esquecimento da escritora, após sua morte até aproximadamente os anos 1980, quando começou a ser redescoberta e estudada, especialmente nos campos da educação e dos estudos feministas.
Oitenta anos depois, em 1977, a ABL admitiu a eleição de uma mulher: a escritora Rachel de Queiroz (1910 – 2003), que ocupou a Cadeira 5. Depois dela, somente outras sete, até mais recentemente, quando outras mulheres foram escolhidas*. Muitos daqueles fundadores da ABL morreram para a memória literária brasileira. Em julho de 2017, na comemoração dos 120 anos da "Casa de Machado de Assis", foi realizada a conferência “Cadeira 41”, com a qual Júlia Lopes de Almeida foi homenageada e seu nome foi restituído como membro e fundadora da Academia Brasileira de Letras. Uma tardia reparação simbólica do apagamento da singular escritora, cujos nome e obra continuam vivos, justamente por não ter sido aceita como "imortal” e pelo simples fato de ser mulher.
Maria Mortatti – 30.05.2023
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* Até 2026, contam-se 13 mulheres integrantes da ABL.
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Este texto foi publicado na coletânea: MORTATTI, Maria. Prosa de leitora: sobre livros, autores e outros acepipes - Volume 1. São Paulo: Scortecci Editora, 2023. Prefácio de João Scortecci.
LÉLIA ABRAMO – MEMÓRIAS DE VIDA E ARTE / MARIA MORTATTI
Lélia Abramo (São Paulo, 08.02.1911 – 09.04.2004) foi uma premiada atriz de teatro, cinema e TV, produtora teatral, ativista política e cultural brasileira e autora do livro Vida e arte: memórias de Lélia Abramo – com prefácio do professor e crítico literário Antonio Candido, texto de orelha do ator e diretor teatral Sérgio Mamberti e publicado pela Fundação Perseu Abramo e Editora da Unicamp, em 1997. Por meio do relato da memória individual da formação intelectual e artística na família, da “conquistas e derrotas, doenças e amores censurados, sonhos e frustrações”, a autora dá a conhecer momentos importantes da história do Brasil, país onde viveu a maior parte da vida e realizou sua carreira teatral, e da Itália, onde teve de permanecer por 12 anos, durante a Segunda Guerra Mundial, anotando os acontecimentos em diários e agendas – muitas vezes “com as bombas caindo sobre nossas cabeças”. Suas lembranças e anotações, as peças, filmes, novelas em que atuou, as atividades que realizou como atriz e ativista e o registro escrito de suas memórias são também indicadores empíricos de sua contribuição para a memória coletiva.
Filha dos imigrantes italianos Vicenzo Abramo e Afra Iole Scarmagnan, irmã de figuras de destaque do jornalismo, artes, cultura e política do País, como Lívio Abramo, Athos Abramo, Fúlvio Abramo e Claudio Abramo, Lélia participou de grupos amadores de teatro e iniciou a carreira profissional de atriz aos 47 anos, na peça Eles não usam black tie, de Gianfrancesco Guarnieri, encenada no Teatro de Arena (SP). Desde então, teve atuação destacada ao longo de sua intensa e extensa carreira profissional, lembrada por seus personagens icônicos. Conviveu e contracenou com grandes nomes do teatro e da cultura brasileiras em diferentes momentos de sua carreira profissional. Participou, como atriz, de 23 peças de teatro de grandes dramaturgos nacionais e internacionais – como Jorge de Andrade, William Shakespeare, Federico Garcia Lorca, Bertolt Brecht, Samuel Beckett, Eugène Ionesco e Henrik Ibsen, Ésquilo –, participou de mais de uma dezena de declamações e leituras dramáticas e realizou atividades como diretora e produtora teatral. No cinema, atuou em 14 filmes, entre os quais, Vereda da salvação, O caso dos irmãos Naves, Beto Rockfeller, Joana, a francesa, Eles não usam black tie. Nas TVs Excelsior, Tupi, Globo e Manchete, participou de 27 telenovelas, 21 “casos especiais”, mais de 40 teleteatros, entre os quais, as novelas Meu pé de laranja lima e Pai herói; os “casos especiais” A casa de Bernarda Alba e O tempo e o vento.
Participou, ainda, de júris de concursos e de prêmios nacionais de dramaturgia, foi conferencista e palestrante em seminários sobre teatro e assuntos culturais, presidiu o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, contribuindo para a regulamentação da profissão – o que lhe custou a demissão da rede Globo e o primeiro infarto –, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, foi figura de destaque na luta contra a ditadura militar no Brasil, deu aulas para grupos de teatro comunitário na periferia da capital paulista e recebeu homenagens, entre as quais a de patronesse da Oficina Cultural Lélia Abramo, na cidade de Araraquara/SP, onde a família Abramo residira no final do século XIX e onde moravam sua meia-irmã Ângela Maria Abramo Longo, seus sobrinhos e sobrinhos-netos.
Pelas atuações e o conjunto de sua obra, Lélia Abramo recebeu mais de uma dezena de prêmios, tais como: Prêmio Saci e Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Prêmio Roquete Pinto, Prêmio Molière, Prêmio Governador do Estado.
Nas palavras de Antonio Candido, frente a tantas “quebras” do nosso mundo, “conforta ler a narrativa de uma vida como a de Lélia Abramo, que nunca vergou a espinha, nunca sacrificou a consciência à conveniência e desde muito jovem se opôs à injustiça da sociedade”. Nas palavras do crítico teatral Gianni Ratto (FSP, 1997): "O que me parece extraordinário em Lélia é a capacidade que ela tem de coordenar uma visão estético-crítica que sempre norteará seu trabalho com a postura sociopolítica que até hoje não a abandona, e, o que mais me surpreende, é que em todas as suas atitudes, talvez sem percebê-lo, é luminosamente suprapartidária". Uma mulher que, apesar das dificuldades que marcaram sua vida e arte, manteve a esperança, como ela mesma afirma nas palavras finais do livro, mencionando a amizade com duas crianças: “Eles serão cidadãos do século XXI. Espero que a aproximação de gerações tão díspares signifique que algo da memória e do passado possa ser mantido no coração do ser humano, como inspiração de solidariedade”.
Maria Mortatti – 29.04.2026
SÓROR JUANA INÊS DE LA CRUZ E O SUBVERSIVO “AMOR ÀS LETRAS” / MARIA MORTATTI
“Décima musa”, “Fênix da América”, “primeiro grande expoente da cultura colonial mexicana”, “primeira feminista das Américas”, “precursora e profetisa do feminismo mais refinado da atualidade”, “última grande escritora do Barroco hispânico”, são alguns epítetos utilizados em referência à poetisa, dramaturga e filósofa mexicana (nova-espanhola) Juana Inês de La Cruz (12.11.1648/1651 – 17.04.1695).
Filha ilegítima de um oficial espanhol e de uma criolla (descendente de espanhol, nascida na América colonial), Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana nasceu na cidade de San Miguel Nepantla, próxima à Cidade do México, na época capital do Vice-Reino da Nova Espanha (1535 – 1821). Como ela relata em uma de suas obras de caráter autobiográfico – Resposta da poetisa à mui ilustre Sor Filotea de la Cruz – aprendeu a ler e escrever aos três anos de idade; com seis ou sete anos insistiu com a mãe que a levasse, em trajes masculinos, para cursar universidade na Cidade do México. Não tendo conseguido, desforrou “seu desejo lendo muitos livros da biblioteca do avô” paterno. Ainda adolescente, foi para a capital morar com parentes e continuou, como autodidata, estudando línguas, ciência, filosofia, teologia, entre outros assuntos que eram exclusividade dos homens. Em 1664, o vice-rei a convidou para a corte como dama de companhia e, posteriormente, submeteu seu conhecimento a testes com cerca de 40 renomados estudiosos. Tornou-se, então, admirada e conhecida pela memória, inteligência e erudição. Com aproximadamente 16 anos de idade, ingressou como religiosa no Convento das Carmelitas Descalças. Pouco tempo depois, mudou-se para Convento de Santa Paula, da Ordem de São Jerônimo, onde fez os votos de freira e permaneceu na clausura monástica até morrer de tifo, contraído quando cuidava de outras irmãs do convento.
Não tinha vocação, mas escolheu a vida monástica movida pelo anseio de “ler e mais ler, de estudar e mais estudar, sem outro mestre que os próprios livros” e pelo desejo de “viver sozinha (...) e não ter ocupação obrigatória” – tinha “total aversão ao matrimônio” – nem “rumor da comunidade” que atrapalhasse a liberdade e o sossego de seus estudos. Recusou, assim, posições que, na época, eram destinadas às mulheres – ser esposa ou cortesã –, para se dedicar a atividades masculinas, restritas às universidades e às ordens religiosas.
Em sua cela no convento, reuniu uma imensa biblioteca – considerada uma das maiores do Novo Mundo –, uma coleção de instrumentos científicos e musicais, manteve contato com outros estudiosos e membros influentes da corte e contava com a amizade, proteção e mecenato do vice-rei e da vice-rainha da Nova Espanha. Escreveu e teve publicados poemas líricos e satíricos, peças de teatro, ensaios filosóficos, serviços religiosos encomendados para festividades da Igreja e do Estado. Foi a primeira mulher nascida na América a publicar um livro: Inundación Castálida de la Única Poetisa, Musa Décima, sóror Juana Inés de la Cruz, religiosa profesa en el monasterio de San Gerónimo de la imperial ciudad de México, que en varios metros, idiomas y estilos, fertiliza varios asuntos con elegantes, sutiles, claros, ingeniosos, útiles versos, para enseñanza, recreo y admiración (Madrid, 1689), dedicado à vice-rainha D. María Luisa Conçaga Manrique de Lara, Condessa de Paredes.
A dedicação de Sóror Juana às artes e à ciência, sua ousadia teológica, a insubmissão às regras de um mundo dominado por homens e pela religião e sua defesa da educação das mulheres desagradavam a Igreja católica. A culminância desse “desagrado” se deu com o episódio que originou uma grande polêmica, além de críticas e ameaças diretas a Sóror Juana, feitas pelo bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, na Carta Atenagórica – assinada com o pseudônimo de Sor Filotea da Cruz. Nessa carta, o bispo elogiava o conhecimento da autora no comentário a ela encomendado sobre o Sermão do Mandato (1650), do Padre Antônio Vieira, mas criticava severamente sua dedicação aos assuntos profanos, recomendando que os abandonasse para se dedicar aos assuntos do convento. No ano seguinte, Sóror Juana publicou Respuesta da poetisa à mui ilustre Sor Filotea de la Cruz (Resposta da poetisa à muito ilustre Sor Filotea de la Cruz), com argumentos racionais em defesa de sua produção literária sobre assuntos profanos e da posição da mulher como intelectual. Sob ameaça da acusação de heresia, nos últimos anos de vida parou de escrever e doou sua biblioteca, instrumentos científicos e musicais e outros bens. Apresentou depois à Santa Inquisição pedido de misericórdia e perdão, dedicando-se, até a morte, a duras penitências e aos serviços de caridade.
Entre os mais de 400 textos que Sóror Juana escreveu, estudiosos de sua obra e alguns críticos literários destacam a importância de: “Primero sueño” (“Primeiro sonho”) – com 975 versos, publicado por volta de 1685 –, que aborda a busca incontida da alma pelo conhecimento; e Respuesta a Sor Filotea, publicada no terceiro volume das obras completas, Fama y Obras Posthumas del Fénix de Mexico (Fama e Obras Póstumas da Fênix do México), editado por Juan Ignacio de Castoreda (Madri, 1700; 2ª ed. 1714.)
Ao longo do século XX, a vida e a obra da "Fênix da América" foram “redescobertas” e divulgadas em outras publicações, em especial: a do poeta e intelectual mexicano Alfonso Méndez Plancarte, publicada entre 1951 e 1957; e a do escritor mexicano Octavio Paz, Sor Juana Inés de la Cruz o Las trampas de la fe (Sóror Juana Inês de La Cruz e as armadilhas da fé), de 1982, que contém biografia intelectual e análise da obra de Sóror Juana. É considerada “a obra fundamental para entendê-la como poetisa, filósofa, 'primeira feminista das Américas' e pioneira na 'posição do poeta moderno frente ao cosmos, que depois, dois séculos mais tarde, Mallarmé vai revelar num poema essencial'”.
No Brasil, a primeira tradução de um poema – “El divino narciso” – de Sóror Juana foi publicada em 1945, pelo poeta Manuel Bandeira. O livro Letras sobre o espelho (Iluminuras, 1989), organizado e apresentado por Tereza Cristófani Barreto, contém poemas de Sóror Juana com traduções da organizadora e de Vera Mascarenhas de Campos. Em 2023, foi publicada a coletânea Poesia selecionada (Machado), com tradução de Alex Cojorian e apresentação de Sara Poot-Herrera. Mais recentemente, devido aos avanços dos movimentos feministas e ao debate sobre os direitos das mulheres, dados biográficos, textos e análises da obra de Sóror Juana vêm sendo divulgados em vários idiomas, em sites na Internet, artigos e estudos acadêmicos, além de filme, documentário e série em streaming.
Conseguiram julgar, acusar e silenciar temporariamente Sóror Juana Inês de La Cruz, porém, passados mais de três séculos, permanece viva sua defesa do direito das mulheres à educação e ao conhecimento. A obra excepcional que criou, ultrapassando os limites daquele contexto colonial americano, continua fecundando a esperança de que as mulheres não tenham de pedir permissão para existir, pensar, estudar e realizar sua vocação intelectual e seu subversivo “amor às letras”.
Maria Mortatti – 18.04.2026
GERMAINE KELLERSON: UMA POETA E PACIFISTA FRANCESA / MARIA MORTATTI
A poeta, escritora e pacifista francesa Germaine Kellerson (Périgueux, 1890 – Sarliac, 1978) nasceu e viveu da região de Périgord, no Sudoeste da França. Em esparsas informações disponíveis na Internet, seu nome é mencionado como filha do industrial e inventor Francisque Chaux, esposa do professor universitário Joseph Kellerson – com quem teve dois filhos, Robert e Francis –, humanista, “embaixadora da humanidade”. No contexto de instabilidade política da Terceira República Francesa (1870 – 1940) e nos períodos conturbados da Primeira Guerra Mundial, do entreguerras, da ascensão do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, ela trabalhou intensamente em movimentos em defesa da paz, da liberdade, dos direitos das mulheres e do voto feminino e produziu a obra literária, fazendo sua voz ecoar para além dos limites regionais, assim como outros escritores franceses.
Entre as décadas de 1920 e 1950, fundou o Centro da Nova Europa e o Clube de Pequenos Europeus de Paris; presidiu a Aliança Federalista de Mulheres pela Paz, a União Econômica e Federal Europeia e a Liga dos Estados-Unidos da Europa; participou, como representante francesa, do Congresso da Liga Internacional de Mulheres pela Paz, em Dublin, Irlanda, da primeira reunião da Liga de Ação Feminina pelo Sufrágio das Mulheres, em Paris, proferiu palestras literárias na Sociedade de Escritores Provinciais e se correspondeu com escritores, entre os quais o alemão Thomas Mann. Também publicou textos ou teve sua obra divulgada em jornais e revistas, como: La Voix des Femmes (A voz das Mulheres), jornal “feminista, pacifista, socialista e internacionalista”; L'Éveil des Peuples (O Despertar do Povo), jornal fundado em 1932 pelo católico progressista Marc Sangnier; L'Egyptienne (A Egípcia): “revista mensal: feminismo, sociologia, artes”; L'Intransigeant (O Intransigente), jornal fundado em 1880 – inicialmente de esquerda e, na década de 1920, de direita; e nos periódicos Hommes et Mondes (Homens e Mundos), L'Aube (Alvorecer), La Jeune République (A Jovem República), La Voie de la Paix (A Via da Paz).
É autora de seis livros de poesia e prosa – ilustrados e com várias edições, alguns encontrados em sebos ou digitalizados pela Sociedade FeniXX –, além de prefácios, ensaios e biografias. Seu livro de estreia literária, Inquiétudes – poèmes en prose (Inquietudes – poemas em prosa) (1929), com prefácio do escritor André Lamandé e litografias de Lucien de Maleville, foi publicado em Paris, pela Éditions La Caravelle, em edição de “grand luxe” e tiragem de 200 exemplares. Na década de 1930, foram publicados Le chant de la vie – roman (O Canto da Vida) (1935), por Corréa Éditeur, Paris, dedicado aos dois filhos da autora e aos futuros netos; e Rose-Pimpim – roman pour grandes fillettes (Romance para meninas grandes), pela Édition du Périgord Noir. Nas década de 1940, foram publicados Poèmes de la fin du jour (Poemas do fim de dia) (1943), com prefácio do poeta Charles Vildrac, pela editora Pierre Fanlac, de Périgueux, na série Le Cahiers de Province; e Ne pas se taire..., souvenirs des temps maudits (Não se cale..., lembranças de tempos malditos) (1946), pela Éditions du Périgord Noir, contendo relatos de testemunhos pessoais do período sombrio da guerra. Seu último livro, Le Journal de Jeantou (O diário de Jeantou) (1951), foi publicado pela Librairie Gedalge, Paris, com a dedicatória: “Em memória de Antoinette Lamandé, que era minha amiga e Mané do pequeno Jeantou”.
Nas palavras do historiador de Périgueux, Jean-Claude Bonnal, “É antes de tudo a poesia que permitirá a essa grande humanista transmitir ternura e generosidade”. Para o historiador, escritor e poeta Paul Mourousy, "Esta mulher cujo coração, sensibilidade e inteligência escolheram entre o egoísmo do artista e o sacrifício do apóstolo, trabalha noite e dia pela paz. Ela faz parte desta elite que transmite uma tocha da qual emergirá, queiramos ou não, o gênio e a felicidade dos futuros europeus”. Para o escritor André Lamandé, prefaciador de Inquiétudes, esse livro: "é como um tenro ninho de pombas feridas pelo amor" que “é um estado permanente, uma invasão do ser por inteiro – espírito e carne”. Nas palavras do poeta e escritor Charles Vildrac no prefácio de Poèmes de la fin du jour, “a poesia de Madame Germaine Kellerson é despojada de artifícios vãos e seduções da moda (...) é pela qualidade do timbre que ela nos toca.” Segundo comentários publicado nos jornais La République e La Femme de France (A mulher da França), O Canto da Vida é um “livro angustiante” em que, contra os perigos de seu tempo, a voz da autora “subiu tão pura e tão alta”.
Apesar desses registros e reconhecimentos de sua atuação e sua obra, Germaine Kellerson é ainda pouco conhecida na França e desconhecida no Brasil e em outros países. Foi-me apresentada pelo poeta e pesquisador franco-brasileiro Michel Thiollent, por meio dos livros Inquiétudes e Poèmes de la Fin de Jour, cuja leitura me instigou a buscar, reunir e fazer tradução livre de informações dispersas em sites da Internet e de títulos e trechos de livros disponíveis em sebos ou bibliotecas digitais. Como a de muitas mulheres que se dedicaram à defesa do direito à voz, a produção literária de Germaine Kellerson ainda está por ser traduzida, estudada e avaliada no contexto de efervescência artística e intelectual de sua época e como representante não apenas da literatura regional de Périgord, mas também da escrita feminina francesa em meio às vozes masculinas das vanguardas europeias do início do século XX, como surrealismo, dadaísmo, cubismo/futurismo, modernismo.
Não se podem calar as inquietudes, o canto da vida, as lembranças de tempos sombrios, o amor como “estado permanente” também na busca da paz, que ecoam, ainda hoje, na voz de Germaine Kellerson, que assim deixa registrado em seu “Testament” poético e humano, no livro Poèmes de la Fin du Jour: “Lorsque je serai morte, reste fidèlement l’écho vivant de mon message : ‘Il n'est pas d'autre verité que celle de savoir aimer’.” (“Quando eu morrer, permaneça fielmente o eco vivo da minha mensagem: ‘Não há outra verdade senão a de saber amar’.”)
Maria Mortatti – 26.03.2026
MÉCIA DE SENA: UMA ESCRITA DE RESISTÊNCIA / MARIA MORTATTI

A escritora, tradutora, epistológrafa e professora portuguesa Maria Mécia de Freitas Lopes (Leça da Palmeira, 16.03.1920 – Los Angeles, 28.03.2020), de família de músicos e historiador, aprendeu piano e línguas estrangeiras, leu clássicos da literatura, formou-se em piano pelo Conservatório de Música do Porto e em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Lisboa, foi professora do ensino secundário, traduziu clássicos da literatura – assinando seus primeiros trabalhos como Freitas Lopes. Em 1949, casou-se com o poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor Jorge Cândido de Sena (Lisboa 02.11.1919 – Santa Barbara, Califórnia, 04.06.1978), também de família da alta burguesia portuguesa, tocava piano, era leitor e poeta desde jovem, engenheiro civil de formação e profissão, que se tornou tradutor de dezenas de obras em vários idiomas e professor catedrático na área de literatura em faculdades no Brasil – naturalizou-se brasileiro em 1963 –, e em universidades nos Estados Unidos da América.
NA TRAVESSIA DO DESERTO DO MUNDO, COM SOPHIA ANDRESEN / MARIA MORTATTI
“Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar/ (...) Nada pode apagar/ O concerto dos gritos” são versos da célebre “Cantata da Paz”, da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (06.11.1919 – 02.07.2004). O poema foi escrito para a vigília em que ela e um grupo de católicos progressistas, reunidos na noite de 31 de dezembro de 1968, na igreja de São Domingos, em Lisboa, manifestavam-se pela paz e contra as guerras. O poema faz referência à bomba de Hiroshima, à guerra do Vietnã, à guerra colonial portuguesa na África – iniciada durante o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar, em Portugal. Foi musicado e gravado, em 1970, pelo ex-padre Francisco Fanhais, tornando-se uma das canções de protesto mais conhecida em Portugal até a Revolução do Cravos, em 25 de abril de 1974, que encerrou a ditadura do Estado Novo.
De formação aristocrática e católica, Sophia Andresen dirigiu movimentos universitários na Universidade de Lisboa – onde cursou, sem concluir, Filologia Clássica –, participou de círculos literários portugueses com escritores renomados, como Jorge de Sena, foi indicada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista e foi a primeira poetisa portuguesa laureada com o Prêmio Camões (em 1999), além de outros prêmios e homenagens que recebeu.
Publicou dezenas de livros – também para crianças – de poesia, contos, peças de teatro, ensaios e traduções de clássicos da literatura inglesa, italiana, francesa, grega e teve sua poesia traduzida para italiano, inglês, alemão. Conforme críticos literários e estudiosos de sua obra, a poesia andreseniana é marcada pela influência clássica, tratando de forma enxuta, clara e com equilíbrio formal de temas clássicos, existenciais e políticos, como justiça, moral humanista, natureza, mar, memórias, amor.
Manteve também diálogo com escritores e culturas de outros países, entre os quais o Brasil, que visitou nos anos 1960. Viajou por alguns estados do País e se encantou com as belezas naturais, com o português brasileiro, com a cidade de Brasília e com poetas, como João Cabral de Mello Neto e Manuel Bandeira – aos quais dedicou poemas de seu livro Geografia, de 1967 –, Cecília Meireles – sobre a qual escreveu ensaio e poema – e Murilo Mendes, entre outros.
Foi por meio da Antologia da poesia portuguesa contemporânea (Ohno-Kempf, 1982), organizada pelo poeta e escritor brasileiro Carlos Nejar, que conheci a poesia de Sophia Andresen. Entre os de 40 autores apresentados pelo organizador, estão 12 de seus poemas, recolhidos de livros publicados de 1944 e aos anos 1970. São poemas breves, sintéticos, de beleza contundente, como “Cante jondo”: “Numa noite sem lua o meu amor morreu/ Homens sem nome levaram pela rua/ Um corpo nu e morto que era o meu.” Continuou publicando até alguns anos antes de sua morte e, aos poucos, pude conhecer e me encantar com outros poemas que li em alguns de seus livros mais recentemente publicados por editoras brasileiras, como Coral e outros poemas (Companhia das Letras, 2018), com seleção do poeta Eucanaã Ferraz e em que se encontra um de meus poemas preferidos: “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, de Livro Sexto, de 1962.
Depois de ver, ouvir e ler Sophia Andresen, não se pode ignorar o concerto poético que ela nos oferece. Nestes tempos de tantas outras guerras, tragédias humanitárias e povos destruídos, seu apelo pela paz e liberdade e a beleza de sua poesia continuam ecoando e nos convocando para com ela “atravessar o deserto do mundo/ Para enfrentarmos juntos o terror da morte/ Para ver a verdade para perder o medo.”
Maria Mortatti – 10.03.2026
ANÁLISE DA CONFIGURAÇÃO TEXTUAL - DOZE VARIAÇÕES DO MÉTODO / MARIA MORTATTI
Coletânea reúne ensaios que mostram como a abordagem metodológica proposta pode produzir sentidos e ampliar a leitura e a interpretação de textos em diferentes áreas
A NOITE LILÁS / LA NUIT LILAS / MARIA MORTATTI
Maria Mortatti, poeta, escritora e professora universitária, lança seu sétimo livro de poemas, A noite lilás / La nuit lilas, em edição bilíngue – português / francês –, pela Scortecci Editora.
Nesse novo livro, a autora reuniu 55 poemas – originais e respectivas versões. Alguns foram escritos em português e vertidos para o francês. Em outros, o processo foi inverso. Na mistura das duas línguas, reverberam vivências íntimas despertadas na noite lilás, imagem poética em que se transfiguram o sentido de um encontro (in)esperado e o entrelaçamento amoroso que se vai configurando entre a consciência da fugacidade de cada instante e o desejo de continuidade. “Na noite lilás, os sons se sucedem em melodia tocada pelo arco deslizando incessantemente sobre as cordas de um violino”, nas palavras do autor do posfácio.
Sobre a autora
Maria Mortatti é poeta, escritora e professora titular na Universidade Estadual Paulista – campus de Marília. É licenciada em Letras, mestre e doutora em Educação, livre-docente em Alfabetização e presidente emérita da Associação Brasileira de Alfabetização. Além de livros, artigos e ensaios sobre história da educação, alfabetização e ensino de língua e literatura, é autora de livros de contos, crônicas e poesia: Breviário amoroso de Sóror Beatriz, pela Patuá; e, pela Scortecci Editora: a trilogia Essa Mulher – Mulher emudecida, Mulher umedecida, Mulher enlouquecida –; Amor a quatro mãos; O primeiro livro de Arthur; Prosa de Leitora – sobre livros, autores e outros acepipes – v.1 e v.2; Mulher qualquer, mulher – poemas. Recebeu o 54º. Prêmio Jabuti – Educação, da Câmara Brasileira do Livro, em 2012, pelo livro Alfabetização no Brasil: uma história de sua história (Editora Unesp).
SERVIÇO
A noite lilás – poemas / La nuit lilas – poèmes – Maria Mortatti
Edição bilíngue – Português / Francês
Posfácio / Postface – Michel Thiollent
Scortecci Editora – Poemas – Formato 16 x 23 cm – 1ª edição – 2025 – 84 páginas
ISBN: 978-85-366-7047-8
Mais informações:
Livraria Scortecci: https://www.livrariascortecci.com.br/home.php
Maria Mortatti: mariamortatti@gmail.com






