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NA TRAVESSIA DO DESERTO DO MUNDO, COM SOPHIA ANDRESEN / MARIA MORTATTI

“Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar/ (...) Nada pode apagar/ O concerto dos gritos” são versos da célebre “Cantata da Paz”, da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (06.11.1919 – 02.07.2004). O poema foi escrito para a vigília em que ela e um grupo de católicos progressistas, reunidos na noite de 31 de dezembro de 1968, na igreja de São Domingos, em Lisboa, manifestavam-se pela paz e contra as guerras. O poema faz referência à bomba de Hiroshima, à guerra do Vietnã, à guerra colonial portuguesa na África – iniciada durante o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar, em Portugal. Foi musicado e gravado, em 1970, pelo ex-padre Francisco Fanhais, tornando-se uma das canções de protesto mais conhecida em Portugal até a Revolução do Cravos, em 25 de abril de 1974, que encerrou a ditadura do Estado Novo.

De formação aristocrática e católica, Sophia Andresen dirigiu movimentos universitários na Universidade de Lisboa – onde cursou, sem concluir, Filologia Clássica –, participou de círculos literários portugueses com escritores renomados, como Jorge de Sena, foi indicada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista e foi a primeira poetisa portuguesa laureada com o Prêmio Camões (em 1999), além de outros prêmios e homenagens que recebeu. 

Publicou dezenas de livros – também para crianças – de poesia, contos, peças de teatro, ensaios e traduções de clássicos da literatura inglesa, italiana, francesa, grega e teve sua poesia traduzida para italiano, inglês, alemão. Conforme críticos literários e estudiosos de sua obra, a poesia andreseniana é marcada pela influência clássica, tratando de forma enxuta, clara e com equilíbrio formal de temas clássicos, existenciais e políticos, como justiça, moral humanista, natureza, mar, memórias, amor. 

Manteve também diálogo com escritores e culturas de outros países, entre os quais o Brasil, que visitou nos anos 1960. Viajou por alguns estados do País e se encantou com as belezas naturais, com o português brasileiro, com a cidade de Brasília e com poetas, como João Cabral de Mello Neto e Manuel Bandeira – aos quais dedicou poemas de seu livro Geografia, de 1967 –, Cecília Meireles – sobre a qual escreveu ensaio e poema – e Murilo Mendes, entre outros.

Foi por meio da Antologia da poesia portuguesa contemporânea (Ohno-Kempf, 1982), organizada pelo poeta e escritor brasileiro Carlos Nejar, que conheci a poesia de Sophia Andresen. Entre os de 40 autores apresentados pelo organizador, estão 12 de seus poemas, recolhidos de livros publicados de 1944 e aos anos 1970. São poemas breves, sintéticos, de beleza contundente, como “Cante jondo”: “Numa noite sem lua o meu amor morreu/ Homens sem nome levaram pela rua/ Um corpo nu e morto que era o meu.” Continuou publicando até alguns anos antes de sua morte e, aos poucos, pude conhecer e me encantar com outros poemas que li em alguns de seus livros mais recentemente publicados por editoras brasileiras, como Coral e outros poemas (Companhia das Letras, 2018), com seleção do poeta Eucanaã Ferraz e em que se encontra um de meus poemas preferidos: “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, de Livro Sexto, de 1962. 

Depois de ver, ouvir e ler Sophia Andresen, não se pode ignorar o concerto poético que ela nos oferece. Nestes tempos de tantas outras guerras, tragédias humanitárias e povos destruídos, seu apelo pela paz e liberdade e a beleza de sua poesia continuam ecoando e nos convocando para com ela “atravessar o deserto do mundo/ Para enfrentarmos juntos o terror da morte/ Para ver a verdade para perder o medo.”

Maria Mortatti – 10.03.2026



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ANÁLISE DA CONFIGURAÇÃO TEXTUAL - DOZE VARIAÇÕES DO MÉTODO / MARIA MORTATTI

 

Coletânea reúne ensaios que mostram como a abordagem metodológica proposta pode produzir sentidos e ampliar a leitura e a interpretação de textos em diferentes áreas

O texto, de qualquer tipo, forma e conteúdo, carrega marcas de seu tempo e contexto, de seus autores e leitores previstos, das motivações e finalidades que o atravessam. Compreender essas marcas é tarefa que exige olhar atento e ferramentas capazes de produzir e compreender sentidos, que podem passar despercebidos à primeira vista. É nesse horizonte que se insere Análise da configuração textual – Doze variações do método, de Maria do Rosário Longo Mortatti, que apresenta doze ensaios em torno de sua proposta metodológica de leitura e interpretação, mostrando-a, na prática. 

Desenvolvido ao longo de décadas de pesquisas da autora, o método de análise da configuração textual parte do princípio de que é possível produzir interpretações além dos significados mais aparentes do conteúdo de um texto, especialmente verbal, quando considerados os múltiplos aspectos interrelacionados que constituem seus sentidos. Mortatti mostra, em seus ensaios, como essa abordagem de característica interdisciplinar pode ser aplicada a textos de tipos, gêneros e finalidades diversos — escolares, literários, históricos, filosóficos, entre outros. A análise, como observa Michel Thiollent, professor aposentado da UFRJ, permite compreender os efeitos de inclusão, exclusão, dominação e marginalidade que atravessam a produção textual em diferentes épocas e contextos.

Ao romper com a escrita acadêmica convencional, Mortatti propõe um diálogo direto com o leitor, convidando-o a participar de um “banquete de elogio ao texto”. Dessa forma, a autora reafirma a importância da interpretação crítica e contextualizada, ao mesmo tempo que oferece uma ferramenta útil para professores, pesquisadores, estudantes e todos aqueles que buscam aprofundar a compreensão e a prática dos processos de leitura e escrita.

“O objetivo desta coletânea de ensaios não é apresentar uma teoria sobre o método de análise da configuração textual nem ensinar como se deve aplicá-lo, mas deixar o método falar e tocar, mostrando o modo como a autora faz, em vez de como se deve fazer”, registra a autora. “Como respostas a antigas e recentes solicitações e motivações, são apresentadas doze variações em torno do tema de suas constantes investigações de leitora e autora sobre o ‘enigma’ do texto. Pretende-se mostrar que, por meio desse método, é possível encontrar sentidos de um texto que não se encontrariam sem ele e, a partir de sua utilização, pode-se reconhecer o que ele mesmo vale. Ao menos para os que, aceitando o convite para o diálogo, acompanhem as páginas que seguem, como partícipes de um banquete de elogio ao texto.”

Sobre a autora – Maria do Rosário Longo Mortatti nasceu em Araraquara (SP), em 06/11/1954. É poeta, escritora e professora titular na Unesp – Marília. É licenciada em letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (encampada pela Unesp), mestre e doutora em educação pela Unicamp, livre-docente em alfabetização e presidente emérita da Associação Brasileira de Alfabetização. Foi professora de língua portuguesa e literatura na educação básica. Atua no curso de pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação da Unesp – Marília. É autora de livros, artigos e ensaios sobre história da educação, alfabetização e ensino de língua e literatura e também de livros de contos, crônicas e poesia e do blog Literatura & Educação. Recebeu o Prêmio Jabuti em 2012, na categoria Educação, pelo livro Alfabetização no Brasil: uma história de sua história (Oficina Universitária/Editora Unesp).

Título: Análise da configuração textual: doze variações do método
Autora: Maria do Rosário Longo Mortatti
Número de páginas: 190  
Formato: 13,7 x 21 cm
Preço: R$ 69
ISBN: 978-65-5711-291-5


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A NOITE LILÁS / LA NUIT LILAS / MARIA MORTATTI

Maria Mortatti, poeta, escritora e professora universitária, lança seu sétimo livro de poemas, A noite lilás / La nuit lilas, em edição bilíngue – português / francês –, pela Scortecci Editora.

Nesse novo livro, a autora reuniu 55 poemas – originais e respectivas versões. Alguns foram escritos em português e vertidos para o francês. Em outros, o processo foi inverso. Na mistura das duas línguas, reverberam vivências íntimas despertadas na noite lilás, imagem poética em que se transfiguram o sentido de um encontro (in)esperado e o entrelaçamento amoroso que se vai configurando entre a consciência da fugacidade de cada instante e o desejo de continuidade. “Na noite lilás, os sons se sucedem em melodia tocada pelo arco deslizando incessantemente sobre as cordas de um violino”, nas palavras do autor do posfácio.

Sobre a autora

Maria Mortatti é poeta, escritora e professora titular na Universidade Estadual Paulista – campus de Marília. É licenciada em Letras, mestre e doutora em Educação, livre-docente em Alfabetização e presidente emérita da Associação Brasileira de Alfabetização. Além de livros, artigos e ensaios sobre história da educação, alfabetização e ensino de língua e literatura, é autora de livros de contos, crônicas e poesia: Breviário amoroso de Sóror Beatriz, pela Patuá; e, pela Scortecci Editora: a trilogia Essa Mulher – Mulher emudecida, Mulher umedecida, Mulher enlouquecida –; Amor a quatro mãos; O primeiro livro de Arthur; Prosa de Leitora – sobre livros, autores e outros acepipes – v.1 e v.2; Mulher qualquer, mulher – poemas. Recebeu o 54º. Prêmio Jabuti – Educação, da Câmara Brasileira do Livro, em 2012, pelo livro Alfabetização no Brasil: uma história de sua história (Editora Unesp).

SERVIÇO

A noite lilás – poemas / La nuit lilas – poèmes – Maria Mortatti

Edição bilíngue – Português / Francês 

Posfácio / Postface – Michel Thiollent

Scortecci Editora – Poemas – Formato 16 x 23 cm – 1ª edição – 2025 – 84 páginas

ISBN: 978-85-366-7047-8 

Mais informações: 

Livraria Scortecci: https://www.livrariascortecci.com.br/home.php 

Maria Mortatti: mariamortatti@gmail.com 






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ALBALAT E A ARTE DE ESCREVER / MARIA MORTATTI

No final do século XIX, o escritor, jornalista e crítico literário francês Pierre Marie Antoine Albalat (04.02.1856 – 21.09.1935) resolveu iniciar a publicação “do que tinha aprendido por si só”. Era já autor de livros de poesia, contos, romances e ensaios de crítica literária, secretário da direção do Journal des Débats e amigo de grandes escritores franceses de seu tempo. Entre 1899 e 1905, teve publicados pela editora francesa Armand Colin, quatro “manuais práticos e técnicos” de escrita literária que se tornaram clássicos do gênero: L’art d’écrire enseigné en vingt leçons  (A arte de escrever ensinada em vinte lições) (Armand Colin, 1899); La formation du style par l’assimilation des auteurs (A formação do estilo pela assimilação dos autores) (1901); Le travail du style enseigné par les corrections manuscrites des grands écrivains (O trabalho do estilo ensinado pelas correções manuscritas dos grandes escritores) (1903); Les ennemis de l'art d'écrire. Réponse aux objections de MM. F. Brunetlère, Emile Fagaet, Adolphe Brisson, Rémy de Gourmont, Ernest Charles, O. Lanson, Pélissîer, Octave Uzanne) (Os inimigos da arte de escrever. Resposta às objeções de ...) (1905). Recebeu por duas vezes o Prix Saintour: em 1904, por Le Travail du style ...; e, em 1914, por Comment il faut lire les auteurs classiques français
 
Criticando os manuais de escrita de sua época, que, por não fazerem demonstrações de estilo, não ensinavam a técnica da escrita, o autor se propunha a “ser guia, para aqueles que não podem ter outros”. Seu projeto consistia em ensinar a escrever “quem quer que não o saiba, mas que tenha o que é preciso para saber”. Por meio de comentários, exemplos e exercícios, trata dos princípios essenciais da arte do estilo, como, entre outros: dom e talento para escrever, importância de leitura de bons autores para a assimilação do estilo por imitação, amplificação ou pastiche. processos de escrita.
 
Os manuais geraram controvérsias e objeções de seus contemporâneos, às quais o autor respondeu em Les ennemis de l'art d'écrire..., mas tiveram ampla circulação na França e continuam sendo editados até os dias atuais. Os dois primeiros volumes foram traduzidos em Portugal pelo filólogo, gramático, lexicógrafo, tradutor e escritor português António Pereira Cândido de Figueiredo (19.09.1846 – 26.09.1925), cuja obra mais conhecida é o Novo dicionário da língua portuguesa, publicado em 1899 e reeditado até 1996.  A primeira edição portuguesa de A arte de escrever... foi publicada em 1913, pela Livraria Clássica Editora (Lisboa) e reeditada em 1921 e 1944; e a de A formação do estilo..., em 1912(?), também com reedições. Não localizei informações sobre traduções dos outros volumes, mas os dois primeiros circularam no Brasil especialmente na primeira metade do século XX. Foram usados para o ensino de literatura em cursos ginasiais e também se tornaram leitura de referência para autores de manuais de literatura e escritores. A arte de escrever..., por exemplo, é citado pelo Padre Antonio da Cruz, professor do colégio do Caraça (Mariana/MG), em seu manual Arte da composição e do estilo (1949), e por escritores, como Monteiro Lobato, que ora critica os “moldes de estilo”, ora explicita, em seus conselhos sobre a escrita e a leitura, a influência das lições do estudioso francês, e também numa carta da personagem Célia, de Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, em que ela pede ao marido que lhe traga de Paris um exemplar do livro. 

No Brasil, durante a segunda metade do século XX, com as mudanças no ensino de literatura, esses manuais (em francês ou em português) ficaram praticamente esquecidos para sua finalidade original. Alguns exemplares podiam ser encontrados em sebos – onde comprei alguns deles, por preços irrisórios, para minhas pesquisas nos anos 1990 –, ou em acervos históricos, para uso por pesquisadores e estudantes em trabalhos acadêmicos e artigos sobre história da educação e dos manuais escolares. Mais de 120 anos depois das primeiras edições francesas, esses manuais continuam atuais. Recentemente, foi lançada nova edição brasileira de A arte de escrever ensinada em vinte lições, pela editora Kírion, com tradução de Rodrigo Gurgel. Tem sido divulgado e usado principalmente como suporte para “oficinas de escrita criativa”, evidenciando o interesse de tantas pessoas de se tornarem escritores e publicarem livros em formatos físicos ou digitais. Se, por um lado, esse fenômeno contribui para a democratização e dessacralização da atividade literária, por outro, chama a atenção quando comparado com o decréscimo de número de leitores e relacionado com os avanços da inteligência artificial generativa, com robôs treinados, não para criações originais, mas para a geração automática – por meio de assimilação/imitação/repetição – de textos, imagens, músicas já existentes, com os quais são treinados por humanos. 
 
Em 1899, Albalat alertava em A arte de escrever: “Estamos inundados de livros. Que será a literatura , quando toda a gente a praticar?"; “essa doença de escrever, que nos invade e que fez desanimar o público”; “Toda a gente pode escrever?”; “Poderemos ensinar a escrever?”; “Devemos escrever?”; “Não haverá já bastante escritores?”. Em defesa de seus manuais de escrita e tentando conciliar possíveis contradições, ele mesmo responde: a literatura é uma vocação, um talento, um dom “que se possui por natureza, mas que se desenvolve depois pelo estudo daqueles que foram e serão sempre os mestres da literatura”. “A admiração conduz à imitação, e a imitação é um meio de assimilar as belezas alheias.” 
 
O que diria, então, Albalat, se estivesse vivo e tomasse conhecimento da "inundação" de livros e autores neste início do terceiro milênio? Ou de suas lições de escrita e estilo – ou as de seus imitadores – servindo de guia no treinamento dos robôs que geram textos, talvez até mais “perfeitos” do que os de humanos, mas muitas vezes meros plágios ou pastiches? Para a sorte dos mestres da literatura e dos leitores argutos e sensíveis, porém, Albalat também advertia sobre os perigos do pastiche, uma das técnicas que ele mesmo ensinava: “a imitação artificial e servil das expressões e dos processos de estilo de um autor” “não pode ser senão um exercício de ginástica literária”; “os escritores mais originais são os mais fáceis de pastichar”, mas “não se pode copiar a alma de um autor”, nem, por certo, nos casos de terceirização por robôs, nem, talvez, de textos psicografados por médiuns. 

No contexto atual, certas afirmações teóricas de Albalat – como a de a escrita ser mera transcrição da fala – estão superadas, e suas lições técnicas – como a assimilação/imitação – se tornaram questionáveis. Mas permanece a atualidade da questão de fundo: a arte de escrever literatura e a formação do estilo continuam sendo atividades específicas e profundamente humanas de criação, fruto de talento, inspiração e árduo trabalho intelectual e técnico de e sobre a linguagem... humana. 
 
Maria Mortatti – 24.08.2025
 

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COM O TEMPO - AVEC LE TEMPS / MARIA MORTATTI


Com o tempo

Com o tempo tudo se vai:
os anos de enganos,
as ilusões perdidas,
as perguntas sem respostas.

Quando tudo se foi
e exaustos nos encontramos
na rede estreita do destino,
esquecida toda a ciência,
almas se roçando em carne viva,
na urgência do instante,
enfim, aprendemos a amar.

26.01.2024


Avec le temps

Avec le temps, tout s’efface :
les années de tromperie,
les illusions perdues,
les questions sans réponse.

Quand tout s’est effacé
et, épuisés, nous nous retrouvons
dans le hamac étroit du destin,
toute science oubliée,
les âmes s’effleurant en chaire vivante,
dans l’urgence de l’instant,
enfin, nous apprenons à aimer.

26.01.2024


In: A noite lilás / La nuit lilas. Ed. bilíngue. Posfácio de Michel Thiollent, Scortecci Editora, 2025 


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MULHER / MARIA MORTATTI

 



Mulher

Bela e fera.
Beija e morde.
Bate e assopra.
Teme e deseja.
Luta e perde.
Chora e espera.
Perdoa e revida.
Purga e ri.
Perde e luta.
Sangra e goza.
A das flores.
A das dores.
Mulher qualquer,
mulher.

Maria Mortatti 

In: Mulher qualquer, mulher. Scortecci Editora, 2024.


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ROLAND BARTHES E O PRAZER DO TEXTO: É ISSO! / MARIA MORTATTI

"(...) as leituras da infância deixam nós a imagem dos lugares e dias em que as fizemos", escreve o francês Marcel Proust (10.07.1871-18.11.1922), no opúsculo Sobre a leitura (Sur la lecture), originalmente prefácio para sua tradução, em 1906, de Sesame and lilies (1865), um dos livros mais conhecidos do esteta inglês John Ruskin. 

Não só as da infância. Uma das experiências recentes de leitura me fez lembrar dessa constatação, de quando e por que li os primeiros volumes de À la recherche du temps perdu (Em busca do tempo perdido), de Proust, e dos lugares e dias de tantas outras leituras de que me lembrei quando o li. Uma, em especial, veio-me involuntariamente à memória, a do livro O prazer do texto (Le plaisir du texte), do escritor e crítico literário francês Roland Barthes (12.11.1915- 26.03.1980), com tradução brasileira de J. Guinsburg (Perspectiva, 198?). Li-o um ou dois anos antes do opúsculo de Proust. Foi indicado por um professor que eu admirava. O exemplar era emprestado da biblioteca da faculdade. 

Em um sábado à noite, talvez do ano de 1987, enquanto esperava o horário para um prazeroso passeio com os amigos, sentei-me na poltrona da sala, com lápis e papel ao lado, e comecei a ler como quem apenas se ocupa de uma distração. Aos poucos, porém, fui penetrando no texto. Levantei-me. Fui para cadeira da mesa de jantar. Aprumei-me. Comecei a anotar. Tudo era descoberta. Desisti do passeio, apesar da insistência dos amigos. Retomei a leitura e assim fui até a madrugada. Na memória ficou uma imagem: o prazer do texto, o prazer de desabotoar o primeiro botão da blusa... Não sei se as palavras de Barthes eram exatamente essas, mas assim gravei na memória. 

Anos depois, comprei um exemplar da tradução brasileira. Localizei o trecho. As palavras eram parecidas, mas o sentido se renovou prazerosamente. E assim foi numa outra noite de sábado, quase quatro décadas depois, quando escrevia o prefácio para o livro Cahier de poésie 3 / Caderno de poesia 3, de Michel Thiollent (Scortecci Editora). Reli o livro de Barthes e lá encontrei minhas anotações de antigos momentos de leitura e dos pequenos pormenores que fizeram renascer conexões intertextuais infinitas e angustiantes com outros autores, com “a desenvoltura que faz com que o texto anterior provenha do texto ulterior”, como as macieiras normandas de Gustave Flaubert que Barthes lê a partir de Proust. 

Aquele primeiro botão de sentido cintilou novamente. O prazer do texto é a intermitência. O que seduz é a cintilação da pele entre duas bordas. Assim é a descoberta da relação erótica com os livros que nos escolhem ou escolhemos. Assim foi também com esse livro de Barthes, que despertou em mim o desejo de conhecer sua vasta e sedutora obra. O que faz de um escrito um texto é sua vontade de fruição, seu brio, o ponto onde ultrapassa a tagalerice e arranca do leitor, não um juízo de valor – é bom ou ruim –, mas um juízo de fruição estética: “É isso!”. “O texto de prazer é Babel feliz”.

Maria Mortatti – 28.05.2025


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EDITH WARTHON, PRESENTE DE MR. DURHAM / MARIA MORTATTI

John Mitchell Durham Jr. (02.02.1929-27.11.2008), natural de Dayton/EUA, imigrou em 1957 para a cidade de São Paulo, Brasil, onde faleceu. No início dos anos 1970, foi meu professor de literatura norte-americana no curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (encampada pela Unesp em 1976). Ministrava aulas em Inglês, e também nesse idioma tínhamos de ler os textos literários e redigir trabalhos e provas da disciplina. Mas, quando se tratava de marcar a data de prova, falava sempre em Português, para não haver dúvidas. Durante uma aula em setembro de 1974, ele ofereceu alguns livros como doação. Fui uma das primeiras a aceitar um exemplar de Ethan Frome – com introdução da autora, romance de Edith Wharton, publicado pela Charles Scribner’s Sons, Nova York, sem data, em edição especial para estudantes. Foi assim que conheci a autora. 

Li e gostei da história e da estrutura da narrativa, que se passa na cidade imaginária de Starkfield, região rural da Nova Inglaterra, EUA, com predominância de clima de inverno rigoroso. Ethan Frome se casa com Zeena. Com pouca coisa em comum, a vida do casal se torna insuportável, Zeena fica constantemente adoentada e chama sua prima Martie para ajudá-la. Ethan e Martie se apaixonam; Zeena, desconfiada, manda a prima de volta para sua casa e pede para Ethan levá-la à estação. Inconformados com a separação, os amantes decidem cometer suicídio juntos, num trenó em alta velocidade em direção a uma árvore. Na descida, Ethan se distrai por um instante com a imagem de Zeena na mente, não consegue atingir diretamente a árvore. Ambos sobrevivem. Ele fica coxo de uma perna e Martie, paralítica. Passam a morar os três juntos, dividindo um quarto pequeno. Zeena passa a cuidar da prima e Ethan arrasta a perna como se estivesse acorrentado numa trágica relação da qual nenhum dos três consegue se livrar.

Edith Wharton (Nova York, 24.01.1862 – Saint-Brice-sous-Forêt, 11.08.1937), autora de mais de 40 livros, além de centenas de contos e poemas, foi uma mulher excepcional para sua época. Não se adaptava aos padrões, costumes e papel destinado às mulheres da alta sociedade nova-iorquina a que pertencia sua família Jones. Ocupava-se desde a infância com estudos, leituras e escrita de histórias e poemas. Na adolescência foi desaconselhada pela mãe a parar de escrever para não afastar possibilidades de casamento, já que escritores e artistas, principalmente mulheres, eram vistos com desconfiança. Mas continuou escrevendo contos e romances em segredo, além de escrever, ela mesma, duras críticas imaginárias sobre seus livros. Com 15 anos de idade escreveu um romance – Fast and Loose (Rápido e solto), publicado postumamente em 1938. Com 20 anos de idade, pouco antes da data do casamento com um empresário do ramo imobiliário, ele rompeu o noivado alegando uma suposta predominância intelectual de Edith e suas reprováveis ambições como escritora. Ela se casou depois com Teddy Wharton, também de família aristocrática. Os interesses de ambos eram diferentes, não tiveram filhos, Edith cumpria suas obrigações sociais e continuou escrevendo e publicando regularmente contos em revistas. 

Destacou-se literariamente aos 43 anos de idade, com o sucesso do romance The house of mirth (A casa da alegria), publicado em capítulos iniciados em 1905, na Scribner’s Magazine. Com a história da protagonista Lily Bart que comete suicídio por não conseguir se encaixar nos padrões da aristocracia, Edith conquistou reconhecimento, fama e dinheiro, tornou-se escritora profissional e não parou mais de escrever, ainda que secretamente na cama, todas as manhãs, como contam seus biógrafos. O casal passou a morar em Paris, onde Edith conheceu círculos de escritores e artistas, teve um amante secreto, causando problemas para seu casamento, e se divorciou para não passar o resto da vida como se estivesse morta. Com base em sua experiência, escreveu o romance que se tornou um clássico: Ethan Frome (1911), com adaptação cinematográfica em 1993, dirigido por John Madden. 

Durante a Primeira Guerra Mundial, Edith escreveu um romance sobre aqueles acontecimentos. Para tentar persuadir os EUA a aderirem, abriu hospitais, tratou de doentes, escreveu relatórios. Por seus esforços em prol dos refugiados da guerra recebeu em 1916 a Legião de Honra do governo Francês, a maior honra concedida a estrangeiros por serviços prestados ao povo francês. Às vésperas do armistício, começou a escrever uma de seus romances mais famosos The age of innocence (1920), cuja história se passa 50 anos antes, no mundo em que tinha nascido, como contraposição às ruínas do período pós-guerra. Com esse romance, foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Pulitzer de Ficção, em 1921. A história foi adaptada para o cinema em 1994, com direção de Martin Scorsese. 

Assim como eu, outros estudantes tiveram a oportunidade de conhecer, por meio de Mr. Durham, Edith Wharton e tantos outros escritores norte-americanos em textos originais. Soube depois, pelo site Faculdade de Ciências e Letras da Unesp – Araraquara, que Mr. Durham formou e manteve por décadas na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp – Araraquara, o acervo do Reading Center Prof. John Mitchell Durham, Jr., vários exemplares de mesmos títulos, em textos originais, disponibilizados aos alunos, por empréstimo. Ainda tenho guardado em minha biblioteca aquele exemplar de Ethan Frome com as anotações que fiz na época. Entre elas, estão trechos da introdução feita pela autora, justificando a escolha do tema e da forma: todo tema “contém implicitamente sua própria forma e dimensões. [...] deve ser tratado de forma tão crua e resumida como a vida sempre se apresentou aos meus protagonistas; qualquer tentativa de elaborar e complicar seus sentimentos teria necessariamente falsificado o todo; e o mais interessante da história é sua construção, caracterizada pela simplicidade com que o narrador conta a misteriosa história iniciada no passado da narrativa, sem falsificar sentimentos dos personagens, os “afloramentos de granito”. 

Retomando, quatro décadas depois, o livro e minha história de sua leitura, pude compreender melhor as lições de Mr. Durham. Ao me presentear com o relato do misterioso caso de Ethan-Zeena-Martie, ele me proporcionou também relembrar, mais de 110 anos depois da publicação do livro, a explicação de Edith Wharton sobre os objetivos de um autor: “devem ser sentidos e executados quase que instintivamente pelo artista antes que possa passar para sua criação aquele algo mais imponderável que faz com que a vida circule nela e a preserva um pouco da decadência”.

Maria Mortatti – 25.05.2025 






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UMA CAIXA DE JOIAS LITERÁRIAS CHINESAS / MARIA MORTATTI

BBibliotecas pessoais, mais do que coleção de livros, guardam caixas de joias literárias garimpadas, escolhidas a dedo. Assim penso cada vez que alguma delas – sem motivo aparente – brilha na estante, entre centenas de outras, oferecendo-se à releitura. Assim aconteceu com a lombada verde-jade e o título branco-pérola de A caixa de joias da cortesã – volume II, coletânea de contos das dinastias chinesas Song (960-1279) e Ming (1368-1644), editado e impresso em Pequim, por Edições em Línguas Estrangeiras, em 1987, e distribuído por Corporação Chinesa para o Comércio Internacional de Livros. 

O volume, com seis ilustrações em bico de pena, contém cinco contos – “O chapéu de feltra esfarrapado”; “A caixa de joias da cortesã”; “O vendedor de óleo e a cortesã”; “O velho jardineiro”; “A vingança de um homem justo” –, selecionados entre mais de duzentas histórias populares chinesas do século X ao XVII, inicialmente manuscritos de contadores de histórias, em linguagem popular, que se desenvolveram como gênero literário e foram publicados em coleções no começo do século XVII. Não há indicação do nome do tradutor para o português, mas pode-se presumir que seja ou uma tradução brasileira “anônima” ou mais provavelmente tradução direta de algum entre os que, como Gladys Yang, Yang Xianyi e Sidney Shapiro, traduziram para o inglês muitas obras da literatura chinesa clássica e moderna, integrando as publicações da Edições em Línguas Estrangeiras, fundada em 1952 e com milhares de publicações, em dezenas de idiomas, sobre assuntos diversos e também material didático para estudantes estrangeiros na China. 

No conto que dá título ao volume se encontra uma narrativa entremeada de alguns versos em tom de comentário, na qual é contada a história de amor protagonizada por Décima, a mais linda cortesã da casa da velha senhora e a mais cobiçada pelos homens. Li, filho de alto funcionário imperial e estudante do Colégio Imperial de Pequim, para usufruir da companhia de Décima, gastou todo o dinheiro que o pai lhe dava. Tornaram-se amantes, juraram amor eterno e, apesar das suspensão dos pagamentos e ordens do pai para que ele retornasse, decidiram libertá-la da casa e da condição de cortesã para se casarem. Depois de muitas dificuldades para Li conseguir o dinheiro e as duras condições impostas pela velha senhora para libertá-la, Décima ganhou de uma cortesã uma caixa com a recomendação de somente abri-la em caso de necessidade e o casal partiu em viagem, sem saber ao certo aonde ir sem dinheiro, temendo voltar à casa do pai dele, depois de ter gastado e com uma cortesã o dinheiro que o pai lhe dera e ainda querer se casar com ela. Durante a viagem, Li encontrou o astuto jovem Sun, aceitou seu convite para beber, contou a ele sua história, ouviu seus conselhos e se convenceu a vender Décima para Sun, pois, assim, Li poderia voltar para a casa do pai com dinheiro e sem ofender a família com uma esposa cortesã. Quando Li conta a Décima sua decisão, sentindo-se traída e abandonada pelo homem que lhe jurara amor eterno, aparentemente aceitou ser vendida, enfeitou-se, perfumou-se e abriu a caixa que havia ganhado na partida. Foi abrindo gavetas de dentro da caixa, cada uma com muitas pedras preciosas, flautas de jade e peças de ouro, jogando-as no rio. Chorando de remorso, Li tentava impedi-la, sem sucesso. Depois de contar, em voz alta para as pessoas que se juntaram ao redor do barco, sua história e a traição de Li que a abandonou no meio do caminho, Décima agarrou o cofre, saltou no rio e nunca mais foi encontrada. Li enlouqueceu e Sun, sentindo-se perseguido pelo fantasma de Décima, adoeceu e definhou até morrer. A narrativa termina com estes versos: “Aqueles que nunca amaram devem ficar silenciosos;/ Não é fácil saber quanto vale o amor;/ E ninguém a não ser os que dão valor à constância/ Merece o nome de amante nesta terra”.

O enredo se passa em 1592, no contexto da invasão da Coreia pelo general japonês Hideoshy, no período Wan Li, quando o imperador concordou com o novo sistema de vantagens para os que tinham dinheiro, como facilidades nos estudos dos filhos de funcionários para adquirirem lugar no Colégio Imperial. Passados mais de quatro séculos e em contexto social e geográfico bastante diverso, essa história ainda encanta de diferentes pontos de vista; a mim, pelo realismo lírico com que são representadas as relações de poder e amorosas, especialmente a condição das mulheres. E o reencontro e a releitura dessa caixa de joias chinesas – que garimpei, escolhi a dedo e comprei por US$ 2,50, no dia 16 de maio de 1990, não lembro onde... –  fez-me pensar que a leitura é também um espécie de amor; não é fácil saber quanto valem joias literárias e somente os que lhes dão valor merecem o nome de amantes da literatura...

Maria Mortatti – 16.05.2025

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FERNANDA LOPES DE ALMEIDA, UMA CLARA LUZ NA LITERATURA INFANTIL / MARIA MORTATTI

Clara Luz, a fadinha transgressora, Soprinho, que torna as pessoas desejosas de fazer coisas, e Glorinha, a menina perguntadeira, foram as primeiras personagens que conheci dos clássicos da literatura para crianças criados pela escritora e psicóloga Fernanda Lopes de Almeida ([18.08].1927 – 27.12.2023). Pertencia a uma “família das letras”: era neta da escritora Julia Lopes de Almeida e do poeta e jornalista Filinto de Almeida, ambos entre os idealizadores da Academia Brasileira de Letras, e sobrinha-neta da escritora e educadora Adelina Lopes Vieira e presumivelmente parente da poeta Presciliana Duarte de Almeida, membro- fundadora da Academia Paulista de Letras, onde ocupou cadeira n. 8, cuja Patrona é Barbara Heliodora, sua bisavó. Como conta em entrevista recente para a revista Aletria, cresceu na casa da família no Rio de Janeiro e, mesmo antes de ser alfabetizada, gostava de ouvir histórias e contos de fadas clássicos que a mãe contava e a leitura já se tornara hábito. Por volta dos oito anos de idade começou a escrever histórias e poemas, mas não foi como sua avó, “que a isso se dedicou a vida inteira”. Formou-se em Psicologia, exerceu a profissão por 25 anos trabalhando com crianças e escrevia contos e crônicas para adultos – com influências da obra literária da avó Júlia –, que foram  publicados em jornais e revistas. Mais tarde, quando começou a escrever para crianças, a principal influência foi Monteiro Lobato, mas logo se libertou pois “já estava muito mais consciente do que queria dizer e como dizê-lo”.

Iniciou a carreira literária para crianças em 1970, integrando uma geração de novos escritores que revolucionaram a literatura infantil e juvenil – como Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Ziraldo – apresentando novos temas e formas de escrever para o público infantil, com textos e ilustrações sensíveis e poéticos, com objetivo de divertir e propiciar leitura prazerosa, sem preocupação de ensinar. Publicou mais de duas dezenas de livros nas décadas seguintes, com muitas edições e milhares de leitores até os dias atuais e que se tornaram clássicos da literatura infantil.

Entre os que me marcaram, estão: os dois livros de estreia da autora no gênero, A fada que tinha ideias – ilustrações de Edu –, adaptado para peça teatral em 1982, que recebeu Troféu Mambembe pelo Melhor Texto de Teatro Infantil, e Soprinho – ilustrações de Odilon Moraes –, que recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil – 1971, da Câmara Brasileira do Livro e integra o acervo permanente da Biblioteca Internacional para a Juventude; e A curiosidade premiada – ilustrações de Alcy Linhares, que recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte em 1978.

Clara Luz, Soprinho e Glorinha também fizeram parte de minhas aulas na educação básica e na universidade. Com eles e as professoras de horizontologia e D. Domingas, aprendemos que, quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda; que podemos ver tudo de forma diferente e encantada, quando nos deixamos levar pelo sopro da imaginação; e que, se para certos adultos prêmio só existe quando se pega nele, para as crianças – e adultos também – a curiosidade é premiada com o autoconhecimento e o conhecimento do mundo. 

Não tenho esses livros em mãos. Levei-os para ler com meu neto, deliciamo-nos com a leitura e ficaram na biblioteca dele. Mas são histórias presentes até hoje em minha memória, clássicos que independem do tempo e da faixa etária. Uma clara luz e um duradouro sopro de renovação na literatura para crianças – e adultos também. Basta senti-los. Assim como disse a longeva autora em entrevista para a revista Crescer: “Nunca penso em faixa etária exata, pois as crianças são tão diferentes umas das outras. E acho, como muitos acham, que o bom livro infantil interessa também ao adulto. ... o que faz um livro ser realmente bom? Não se sabe, ou melhor, não se traduz em palavras. Sente-se”.

Maria Mortatti – 13.05.2025


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