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SÓROR JUANA INÊS DE LA CRUZ E O SUBVERSIVO “AMOR ÀS LETRAS” / MARIA MORTATTI

“Décima musa”, “Fênix da América”, “primeiro grande expoente da cultura colonial mexicana”, “precursora e profetisa do feminismo mais refinado da atualidade”, “primeira feminista das Américas”, “última grande escritora do Barroco hispânico”, são alguns epítetos utilizados em referência à poetisa, dramaturga e filósofa mexicana (nova-espanhola) Juana Inês de La Cruz (12.11.1948/1651 – 17.04.1695). 

Filha ilegítima de um oficial espanhol e de uma criolla (descendente de espanhol, nascida na América colonial), Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana nasceu na cidade de San Miguel Nepantla, próxima à cidade do México, na época capital do Vice-Reino da Nova Espanha (1535 – 1821). Como ela relata em uma de suas obras de caráter autobiográfico – Resposta da poetisa à mui ilustre Sor Filotea de la Cruz – aprendeu a ler e escrever aos três anos de idade; com seis ou sete anos insistiu com a mãe que a levasse, em trajes masculinos, para cursar universidade na Cidade do México, capital da Nova Espanha. Não tendo conseguido, desforrou “seu desejo lendo muitos livros da biblioteca do avô” paterno. Ainda adolescente, foi para a capital morar com parentes e continuou, como autodidata, estudando línguas, ciência, filosofia, teologia, entre outros assuntos que eram exclusividade dos homens. Em 1664, o vice-rei a convidou para a corte como dama de companhia e, posteriormente, submeteu seu conhecimento a testes com cerca de 40 renomados estudiosos. Tornou-se, então, admirada e conhecida pela memória, inteligência e erudição. Em 1667/8, com aproximadamente 16 anos de idade, ingressou como religiosa no Convento das Carmelitas Descalças. Pouco tempo depois, mudou-se para Convento de Santa Paula, da Ordem de São Jerônimo, onde fez os votos de freira e permaneceu na clausura monástica até morrer de tifo, contraído quando cuidava de outras irmãs do convento. 

Não tinha vocação religiosa, mas escolheu a vida monástica movida pelo anseio de “ler e mais ler, de estudar e mais estudar, sem outro mestre que os próprios livros” e pelo desejo  de “viver sozinha (...) e não ter ocupação obrigatória” – tinha “total aversão ao matrimônio” – nem “rumor da comunidade” que atrapalhasse a liberdade e o sossego de seus estudos. Recusou, assim, posições que, na época, eram destinadas às mulheres – esposa ou cortesã –, para se dedicar a atividades masculinas, restritas às universidades e às ordens religiosas. 

Em sua cela no convento, reuniu uma imensa biblioteca – considerada uma das maiores bibliotecas do Novo Mundo –, uma coleção de instrumentos científicos e musicais, manteve contato com outros estudiosos e membros influentes da corte e contava com a amizade, proteção e mecenato do vice-rei e da vice-rainha da Nova Espanha, que intermediaram a publicação de seus textos na Espanha. Escreveu e teve publicados poemas líricos e satíricos, peças de teatro, ensaios filosóficos, serviços religiosos encomendados para festividades da Igreja e do Estado. Foi a primeira mulher nascida na América a publicar um liCro em que pela primeira vez foi reunida sua poesia: Inundación Castálida de la Única Poetisa, Musa Décima, sóror Juana Inés de la Cruz, religiosa profesa en el monasterio de San Gerónimo de la imperial ciudad de México, que en varios metros, idiomas y estilos, fertiliza varios asuntos con elegantes, sutiles, claros, ingeniosos, útiles versos, para enseñanza, recreo y admiración (Madrid, 1689), dedicado à vice-rainha D. María Luisa Conçaga Manrique de Lara, Condessa de Paredes. 

A dedicação de Sóror Juana às artes e à ciência, sua ousadia teológica, a insubmissão às regras de um mundo dominado por homens e pela religião e sua defesa da educação das mulheres desagradavam a Igreja católica. A culminância desse “desagrado” se deu com o episódio que originou uma grande polêmica, além de críticas e ameaças diretas a Sóror Juana, feitas pelo bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, na Carta Atenagórica – assinada com o pseudônimo de Sor Filotea da Cruz. Nessa carta, o bispo elogia o conhecimento da autora no comentário a ela encomendado sobre o Sermão do Mandato (1650), do Padre Antônio Vieira, mas critica drasticamente sua dedicação aos assuntos profanos e recomenda que os abandone para se dedicar aos assuntos do convento. No ano seguinte, Sóror Juana publicou Respuesta da poetisa à mui ilustre Sor Filotea de la Cruz (Resposta da poetisa à muito ilustre Sor Filotea de la Cruz), texto de caráter autobiográfico e com argumentos em defesa de sua produção literária sobre assuntos profanos e da posição da mulher como intelectual. Sob ameaça da acusação de heresia, nos últimos anos de vida parou de escrever e doou sua biblioteca, instrumentos científicos e musicais e outros bens. Apresentou depois à Santa Inquisição pedido de misericórdia e perdão, dedicando-se, até a morte, à penitência e aos serviços de caridade. 

Entre os mais de 400 textos que Sóror Juana escreveu, estudiosos de sua obra e alguns críticos literários destacam: “Primero sueño” (“Primeiro sonho”) – com 975 versos, publicado por volta de 1685 –, que aborda a busca incontida da alma pelo conhecimento; e a Respuesta a Sor Filotea publicada no terceiro volume das obras completas, Fama y Obras Posthumas del Fénix de Mexico (Fama e Obras Póstumas da Fênix do México), editado por Juan Ignacio de Castoreda (Madri, 1700; 2ª ed. 1714.)

Ao longo do século XX, a vida e a obra de Sóror Juana foram “redescobertas” e divulgadas em outras publicações, em especial: a do poeta e intelectual mexicano Alfonso Méndez Plancarte, publicada entre 1951 e 1957; e a do escritor mexicano Octavio Paz, Sor Juana Inés de la Cruz o Las trampas de la fe (Sóror Juana Inês de La Cruz e as armadilhas da fé, na tradução brasileira), de 1982, que contém biografia intelectual e análise da obra de Sóror Juana. É considerada “a obra fundamental para entendê-la como poetisa, filósofa, 'primeira feminista das Américas' e pioneira na 'posição do poeta moderno frente ao cosmos, que depois, dois séculos mais tarde, Mallarmé vai revelar num poema essencial'”.

No Brasil, a primeira tradução de um poema – “El divino narciso” – de Sóror Juana foi publicada, em 1945, pelo poeta Manuel Bandeira. O livro Letras sobre o espelho (Iluminuras, 1989), organizado e apresentado por Tereza Cristófani Barreto, contém poemas de Sóror Juana com traduções da organizadora e de Vera Mascarenhas de Campos. Em 2023, foi publicada a coletânea Poesia selecionada (Machado), com tradução de Alex Cojorian e apresentação de Sara Poot-Herrera. Mais recentemente, devido aos avanços dos movimentos feministas e ao debate sobre os direitos das mulheres, dados biográficos, textos e análises da obra de Sóror Juana vêm sendo divulgados em sites na Internet, artigos e estudos acadêmicos, além de filme, documentário e série em streaming.  

Conseguiram julgar, acusar e silenciar temporariamente Sóror Juana Inês de La Cruz, mas, passado mais de três séculos, sua defesa do direito ao conhecimento permanece viva na obra excepcional que criou e continua fecundando a esperança de que também as mulheres não tenham de pedir permissão para pensar, existir e realizar sua vocação intelectual e seu subversivo “amor às letras”.

Maria Mortatti – 18.04.2026