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LOUISE MICHEL – PROFESSORA E POETA LIBERTÁRIA / MARIA MORTATTI

 “Virgem vermelha”, “loba ávida de sangue”, “a boa Louise”, “devota da revolução”, “fervorosa republicana”, “grande cidadã” são os principais epítetos pelos quais ficou conhecida a francesa Louise Michel (29.05.1830 – 09.01.1905). Professora primária, escritora e anarquista, combateu – com armas e uniforme militar –, nas trincheiras da Comuna de Paris em 1871, foi presa várias vezes, deportada para Nova Caledônia, escreveu folhetos revolucionários, livros de memórias, romances, poesia, peças musicais, panfletos, contos e lendas para crianças, colaborou com jornal anarquista, tornou-se figura emblemática do movimento anarquista e é considerada pioneira do feminismo. 

Filha bastarda de uma empregada e pai desconhecido, Louise nasceu no pequeno município de Vroncourt-la-Côte, viveu no castelo onde sua mãe trabalhava e cujos proprietários ela chamava de avôs e dos quais ela recebeu o sobrenome “Demahis”. Leitora na infância de Voltaire e Rousseau, foi influenciada pelos ideais republicanos e crença no poder da educação de homens e mulheres para o progresso humano. Desde criança queria ser mártir e poeta, admirava o poeta e escritor Victor Hugo, com quem, durante toda a vida, manteve correspondência que passou a assinar com pseudônimo “Enjolras”, nome do republicano insurgente personagem de Os miseráveis. Com a morte do avô, Louise e a mãe foram expulsas do castelo, ela assumiu o sobrenome de sua mãe – “Michel” –, ingressou em curso de formação de professora primária. Mudou-se depois para Paris, onde se formou politicamente em grupos de revolucionários e republicanos, iniciou a militância pelo magistério, tornou-se sócia de internato de meninas em Montmartre – bairro artístico da capital francesa. Inicialmente republicana, combateu na linha de frente na Comuna de Paris (18/03 a 28/05/1871), adotou o anarquismo e a bandeira preta, em defesa da autogestão dos trabalhadores, da revolução social e da educação para o progresso humano e sociedade livre e igualitária, participou de outros movimentos revolucionários, foi presa várias vezes e deportada para a colônia francesa da Caledônia. Continuou lecionando mesmo no exílio, onde montou uma escola para filhos de franceses presos os nativos canaques, aprendeu sua língua e compilou suas histórias. Nos sete anos que permaneceu no exílio, exigiu tratamento igual ao dos homens e recusou perdão individual. Com a anistia aos deportados políticos, em 1880, foi aclamada por uma multidão quando retornou a Paris. Continuou lutando pela causa libertária, foi presa novamente, refugiou-se em Londres, de onde continuou as atividades políticas, viajando para conferências e participando de reuniões políticas. Morreu na cidade de Marselha, com 74 anos de idade, e seu corpo foi repatriado a Paris.

Sempre ensinando, escrevendo, manifestando-se por meio da ação e da arte, a “quase Joana D’Arc” – nas palavras do poeta Paul Verlaine – e para quem Victor Hugo escreveu o poema “Viro Major”, obteve reconhecimento em vida e continua sendo lembrada e homenageada em vários países, além da França, onde dá nome a escolas e ruas em antigos bairros comunistas, é celebrada em canções, peças de teatro, cinema, TV e, mais recentemente, foi uma das francesas homenageada na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Paris em 2024 – causando polêmica no movimento anarquista. Tornou-se tão célebre que grupos políticos de outras vertentes também a reivindicam “sob a fórmula ‘Louise Michel não pertence a ninguém’”, como informa sua biógrafa francesa Claire Azuias, em Louise Michel: une anarchiste hétérogène (1999).

Durante a vida, Louise Michel teve publicados cerca de 20 livros e vários outros postumamente, com traduções em vários idiomas. Além de outras publicações destacadas pela pesquisadora brasileira Samantha Lodi, na biografia Louise Michel: pertenço à revolução social (Entremares, 2022), a lendária francesa é autora de: A Comuna (1988), com suas memórias “vivas” do movimento revolucionário; História, contos e lendas para crianças; O livro do cárcere; Lendas e cantos de gesta canaques com desenho e vocabulário; A miséria – romance escrito em parceria com Jean Guêtré e publicado em folhetim dois anos após seu retorno do exílio; Cartas a Victor Hugo  (trad. brasileira de Ana Paula Castellani, Horizonte, 2005); e Tomada de posse (trad. brasileira de Alex Trevizo; SobInfluencia/Autonomia Literária, 2021), escrito em 1890, dez anos  depois de sua volta do exílio, para um discurso e depois publicado no jornal anarquista Le Libertaire. Nesse texto, Louise Michel registrou: “(...) o mundo inteiro é para todos, e cada um de ter o que lhe cabe: a terra ao semeador, o mármore ao escultor, o oceano aos navios”. Também menciona a esperança no avanço da revolução social para países da América, destacando, entre outros, a proclamação da República no Brasil, em 1889.

As ideias, a ação e o exemplo dessa professora e poeta libertária continuam inspirando a luta em defesa de sociedade igualitária para homens e mulheres. Como ela mesma “profetizou” em suas memórias da Comuna: “Não podemos matar as ideias a tiros de canhão nem tampouco algemá-las”; “A questão das mulheres é, especialmente nos tempos atuais, inseparável da questão da humanidade”; “Nosso lugar na humanidade não deve ser implorado, mas ocupado.” Como a lendária Louise Michel, ela mesma, ensinou e ocupou.

Maria Mortatti – 28.07.2026